Outra grata surpresa do 36º Festival de Brasília é a participação do cineasta Maurice Capovilla, que desde quando filmou O Jogo da Vida, em 1975, não havia realizado novo filme para cinema. O diretor conta nesta entrevista ao Jornal de Brasília sobre suas atividades durante o hiato de 28 anos entre sua carreira no cinema e o retorno à telona com Harmada – último concorrente ao Candango na categoria de longa-metragem em 35 milímetros.
É um festival de clássicos. Não tem time mambembe. É a primeira divisão do cinema brasileiro.
Foram 28 anos sem fazer cinema. Porque ficou tanto tempo sumido? O que você fez durante esse período?
Não é que fiquei sumido. Fiquei desiludido com o cinema. Desencantei-me com o processo econômico. Afastei-me do longa-metragem, mas fiz minhas aventuras pessoais. Nesse período continuei no audiovisual. Fiz sete telefilmes na Band e dirigi documentários para a Manchete, na década de 80. Depois montei uma rede de TVs comunitárias e, no final dos anos 90, montei uma escola múltipla de arte.
Sua obra nasceu no auge do Cinema Novo, mas você também teve uma relação com a Boca do Lixo?
Sempre estive mais ligado ao Cinema Novo. A partir de 61 me aproximei do grupo de Joaquim Pedro de Andrade. Considero-me remanescente desse grupo. Em São Paulo, porém, fui muito ligado a Roberto Santos, da Boca do Lixo. Mas não me considero do movimento. De certa forma, esse cinema de baixo orçamento foi impulsionado pelo Cinema Novo, então acabamos trabalhando juntos.
Por exemplo em O Profeta da Fome?
Sim. Nesse filme usei muitos técnicos da Boca. O próprio Zé Mojica Marins é o protagonista.
Por que a escolha de Harmada para marcar seu retorno?
Até então não tinha uma história para contar. Preferi me abster a fazer um filme qualquer. Até que reli o livro de João, me inspirei e liguei imediatamente para ele. João me deu carta branca e resolvi fazê-lo.
Este é um festival de veteranos que controverteram as formalidades cinematográficas da época dos anos 60 e 70. Você acredita ser este um festival também de excluídos?
Não sou excluído. Acho uma honra ser considerado veterano, se compararmos aos grandes: Fellini ou Chaplin. Acredito que seja um festival de clássicos. Não tem favoritos. Não tem time mambembe. É a primeira divisão do cinema brasileiro.