Logo no início do livro O Baú do Raul Revirado (Ediouro, R$ 45), um texto manuscrito pelo próprio Raul Seixas dá a medida exata da obsessão do roqueiro pela perpetuação de seus pensamentos: “Nada poderia ser esquecido”, escreveu ele, justificando a existência do baú.
De fato, nada foi. Organizado pelo jornalista Silvio Essinger a partir dos arquivos da ex-mulher de Raul, Kika Seixas, e do presidente do fã-clube Raul Rock Club, Sylvio Passos, o livro reúne mais de mil imagens, entre fotos das várias fases da vida de Raul, bilhetes, cartas e letras rabiscadas. De quebra, com o livro ainda há um CD que traz seis faixas inéditas, a maior parte gravações caseiras. Essinger conta que o trabalho de pesquisa foi, por várias vezes, emocionante: “Esbarrar com o manuscrito original de músicas como Gita é realmente especial.
O livro revira a fundo o mito. Estão lá a genialidade de quem escreveu versos de Metaformose Ambulante aos 13 anos, a irresponsabilidade com o trabalho e com o próprio corpo (“Dia de pôr voz em Há 10 mil Anos. Eu sei que tenho uma sucessão nas mãos e fui ao estúdio completamente bêbado”), a doçura de pai (“Não durmo fácil; passo a noite acordado quando Vivi, minha filha, está tossindo”).
Com Elis Há curiosidades tocantes. Como os versos que Raul fez para Elis Regina, revelando ter composto Areia da Ampulheta para a Pimentinha cantar. À medida em que o livro avança, é possível notar a decadência física do ídolo. “A letra dele ia ficando garranchada. Dava uma melancolia”, conta Essinger.
No fim do livro, outra mostra do lado profético do roqueiro: “Agora é Raul Seixas quem Raul vai encarar”, dizia uma das últimas canções. Raul não sobreviveu a ele mesmo.