O que faz, num belo filme brasileiro recém-produzido, com que todos os personagens falem em inglês e releguem à platéia apenas as legendas em nosso idioma? No caso de Lost Zweig, produção de Sylvio Back apresentada no domingo no 36º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, seria prematuro entender o recurso apenas como estratégia para comercialização – embora tal efeito seja claro.
Antes de tudo, devemos nos lembrar que o filme remete a um tempo em que o Brasil, saudado como “o país do futuro”, já era alvo da cobiça internacional de todos os cantos. E os Estados Unidos, nação que de boba não tinha nada (o pecado da superestima da segurança nacional só seria revelado ao mundo em 11 de setembro de 2001), naturalmente já estavam de olho.
“O paraíso só é possível quando se olha para trás”, diz o personagem central de Lost Zweig, o escritor austríaco judeu Stefan Zweig (Rütiger Vogler), autor do livro Brasil, País do Futuro, e em cuja história real o filme se baseia. Tinha toda razão.
O paraíso era o Brasil, com sua profusão de signos tropicais e a tradicional hospitalidade que, estabelecendo uma prazerosa convivência interracial, formou a colcha-de-retalhos que é a nossa composição étnica. O que ficou para trás, no caso de Stefen, sua esposa Lotte (Ruth Rieser) e a comunidade judaica retratada no filme, foi a perseguição aos judeus deflagrada nos anos da II Guerra Mundial. Nesse contexto, Lost Zweig mostra como o Brasil, na prática, tinha muito mais de Terra Prometida do que Israel, país que na época ainda não era “autorizado” a existir.
Mas até que ponto Getúlio Vargas apoiou os judeus que vieram para cá? Quando Zweig percebas tintas da ditadura local, algo mudou. As controvérsias estão no filme, além da abordagem do sonho frustrado de uma “pátria judaica” aqui – o que, em termos de aproveitamento dos recursos naturais do Brasil, teria sido fantástico.
Stefan traz a marca de seu povo ao perpetrar que “a maior tarefa da vida é descobrir como ser você mesmo”. Tal enigma levou-o a uma esfinge implacável: a morte. Oficialmente, um pacto suicida firmado entre ele e Lotte. As entrelinhas da história desse homem-símbolo, amigo da liberdade e contundido no meio do caminho pela máscara caída de uma ditadura tropical, ficam no ar. E poucos, como Sylvio Back, souberam tratar o tema com tamanha delicadeza e precisão.