A atriz Débora Bloch encarna a mulher atual na comédia Brincando em Cima Daquilo, em cartaz na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, sábado, às 21h, e domingo, às 20h. Dirigida por Otávio Müller (o Vidal da novela Paraíso Tropical), a peça é de autoria do casal de autores italianos Dario Fo e Franca Rame.
Depois de estrear no início do semestre no Rio de Janeiro, onde cumpriu temporada de um mês, o espetáculo lançou-se em turnê nacional que abrange Belo Horizonte, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Salvador.
Montada pela primeira vez no Brasil em 1984, com Marília Pera, a peça fala sobre fantasias, sonhos e paixões do universo feminino. “Tratamos de assuntos práticos. É uma comédia com cara de show: tem muita música, muita dança, muita interação com o público. É uma festa”, conta Müller, que estréia na direção. “Não me sinto exatamente diretor. Meu objetivo era montar uma cama para Débora brincar”, afirma.
“Depois da peça fico morta. Muito cansada”, revela Débora Bloch. “Em dia de espetáculo não faço nada. Chego no teatro três horas antes para aquecer corpo e voz. É um trabalho de muita dedicação”, prossegue.
Liberdade em cena
“A peça é um trabalho que me propôs uma liberdade em cena que até então não tinha experimentado”, declara Débora, que, geralmente, recebe o público na entrada do teatro, como se ainda estivesse se aprontando para a apresentação. “Otávio me incitou essa liberdade e eu mergulhei nisso”, continua a atriz, escolhida pelo diretor para o espetáculo por “estar em um momento interessante para enfrentar projetos como este”, nas palavras de Müller. O convite surgiu enquanto os dois atores interpretavam um par na minissérie JK, da TV Globo.
Divida em três histórias, a peça preocupa-se em mostrar as várias facetas da mulher atual. O espetáculo é amarrado por Temos Todas as Mesmas Histórias, entrecortada por outras duas histórias. “É uma parábola da trajetória da vida da mulher”, descreve a atriz. A crônica da mulher que cresce, casa e tem filhos é interrompida por Uma Mulher Sozinha, sobre um marido que tranca a esposa em casa e, depois, por Volta ao Lar, em que uma mulher, decidida a vingar-se do marido, vai para o motel com um colega de trabalho.
“Encontrei neste texto um retrato comovente da condição feminina, independentemente de classe social, do país, da época. Um sentimento que é universal, muito bem descrito com tanta delicadeza, ternura e humor”, pondera a atriz. “Acho o humor fundamental no meu trabalho. É ele que pode mudar as coisas, fazer críticas”, defende. “Adoro comédia. Acho que de extrema importância para a vida”, afirma a atriz que crê que o público se interessa mais pelo gênero porque “a vida já está dura demais”.
“Eu tenho 27 anos de carreira e quero me renovar. Por isso entrei no projeto, em que várias pessoas realizam diferentes funções”, explica a atriz, em referência à dupla de diretores Amir Haddad, que desta vez assina a dramaturgia e Bia Lessa, na cenografia. “A presença deles me deu segurança”, garante Müller.
O palco revela um quase não-cenário. Cinco caixas de som preenchem o espaço cênico, delimitado por elásticos. “Queríamos uma cara de ensaio, que parecesse uma brincadeira”, informa Müller. “Existe um clima de desconstrução. É uma imensa sala, como uma página em branco. A Débora inventa o ambiente no momento da cena”, adianta. “É um espetáculo para o ator criar a ilusão”, completa.
“Dario Fo escreve uma dramaturgia focada no trabalho do ator. Primeiro ele e a esposa faziam a cena, para depois escrever”, explica Débora Bloch. “Otávio, que tem 20 anos de experiência como ator, fez uma direção apoiada nisso. A peça não precisa de nada, apenas de texto e ator”, avalia.
Sobre a estréia na direção, Müller confessa que foi um desafio. “Encontrei todas as dificuldades. É algo muito difícil. É preciso colocar a cara sempre, decidir sempre”. Mas a experiência não o assustou. “Tenho outros convites para dirigir. Vou pensar. Quero criar tempo para isso, da mesma forma que criei tempo para Brincando em Cima Daquilo, que consumiu quatro meses de ensaio”, conclui o diretor.
Brincando em cima Daquilo – de Dario Fo e Franca Rame. Direção de Otávio Müller. Com Débora Bloch. Sábado, às 21h, e domingo, às 20h, na Sala Villa Lobos do Teatro Nacional. Ingressos a R$ 80 (inteira) e R$ 40 (meia, para estudantes e idosos). À venda na bilheteria do teatro. Classificação indicativa: 16 anos. Informações: 3325-6240.