Uma verdadeira releitura da obra de um dos cordelistas mais conceituados do mundo, a mostra A Arte de J.Borges: do Cordel à Xilogravura, montada na galeria do Centro Cultural Banco do Brasil, traz mais de 100 xilogravuras e 50 cordéis do artista e poderá ser visitada até o dia 16 de maio.
José Francisco Borges ou J. Borges, como gosta de ser chamado, nasceu em 1935 e foi criado em uma fazenda, no interior de Pernambuco, no município de Bezerros, distante 95 quilômetros de Recife. Aprendeu a ler com 12 anos de idade e só freqüentou a escola durante dez meses.
“Quando menino, a única diversão que existia na fazenda era o cordel. Onde eu morava não tinha TV, rádio, revista, jornal. A gente sentava à noite e, antes de dormir, ficava assisitindo às encenações daquelas histórias”, lembra, saudoso, o artista.
Na infância, José Francisco trabalhou na lavoura, fez cestos e balaios para comercializar na feira, vendeu jogo do bicho, fabricou lajes e tijolos e confeccionou brinquedos. Quando aprendeu a ler, pegava todas as notícias antigas, publicadas dois anos antes, e ficava lendo só para treinar.
“Aos 20 anos, comecei a comprar e vender cordel e me apaixonei de vez”, conta. Resolveu investir na poesia. “Abandonei todas as outras profissões para me dedicar à literatura de cordel”, conta. Com 29 anos de idade, escreveu seu primeiro cordel. Nascia, assim, O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, que tem na capa uma xilogravura do Mestre Dila. “Entrei no escuro na arte, sem ensinamentos, sem mestres. Aprendi tudo sozinho”, lembra.
O sucesso foi absoluto, porém, não tão imediato. Foi apenas em 1972 que, após ter contato com sua obra, Ariano Suassuna começou a divulgar os trabalhos de J.Borges. “A palavra de Ariano é muito forte e ainda bem que acreditaram nele, né? Nunca fui tímido para falar. Na época, dei muitas entrevistas para revistas, jornais, TV. Foi assim que o meu trabalho se espalhou pelo Brasil e pelo mundo”, diz.
Para o produtor e um dos curadores, Pieter Tjabbes, a mostra situa o visitante. “A idéia é a de inserir Borges dentro não apenas em sua cultura, mas da cultura nordestina”, diz Pieter.
Por isso, foi montada no local uma verdadeira feira. São máscaras de papel marchê, garrafas de pinga, bumba-meu-boi e muitos cordéis. Ao lado, há a reprodução da oficina de J.Borges, onde ele estará produzindo, a cada dia, novas obras. Assim, a mostra será sempre acrescida de novos trabalhos, para provar o vigor e a criatividade do artista nordestino.
“Todos os ambientes da galeria têm um caráter que remete à cultura nordestina”, diz Pieter. Assim, além de conferir as gravuras e cordéis de J.Borges, o visitante poderá ter acesso a um vídeo sobre a vida do artista (assinado por Vincent Carelli) e músicas populares de cantadores, além de ver J.Borges criando as matrizes em madeira e fazendo as gravuras.
A exposição está dividida em diversos segmentos: a história do cordel, das técnicas de xilogravura e da impressão, por meio de painéis contendo a exposição de cordéis antigos e placas originais de xilogravuras. Na abertura do evento, realizada na última segunda-feira, J.Borges reencontrou amigos antigos, como o jornalista Jeová Franklin, o professor da Universidade Católica, Milton Cabral, e o cineasta Vladimir Carvalho. “Toda vez que encontro Vladimir ele diz que eu sou gigolô de prostituta, que ganha dinheiro às custas dela”, brinca J.Borges, fazendo referência a um de seus mais famosos cordéis, A Chegada da Prostituta no Céu.