Muito batuque, letras de cunho social e expectativa de sucesso. Esses são os ingredientes que recheiam o lançamento do segundo CD da banda carioca de percussão AfroReggae, intitulado Nenhum Motivo Explica a Guerra. Escolhido para abrir o show dos Rolling Stones no Rio de Janeiro, em fevereiro, o grupo começa a consolidar a carreira musical e comemora o sucesso que tem alcançado pelo Brasil e o mundo.
O novo trabalho da banda, derivada da ONG homônima, vem mais maduro que o primeiro, Nova Cara, de 2001, quando eles ainda eram apenas uma banda da favela carioca de Vigário Geral que queria denunciar as injustiças que ocorriam nos morros do Rio de Janeiro. Em Nenhum Motivo Explica a Guerra, o AfroReggae afia um discurso universal. “No primeiro CD a gente trabalhou composições nossas. Foi meio que um grito. Neste novo, a gente não quer falar somente do problema, como também mostrar a esperança”, explicou o percussionista Dáda, em entrevista ao Jornal de Brasília.
O título do disco foi tirado da primeira música do CD, composta por Arnaldo Antunes, que diz que nada justifica a quantidade de guerras que existem hoje em dia. Músicas como Quero Só Você, que tem Nando Reis e Liminha entre os compositores, e A Aquarela Dela, letra de Geraldinho Carneiro, mostram o interesse do AfroReggae – formado ainda por Ando, Dinho, LG, Cosme Augusto, Jairo Cliff, Joel Dias, Altair, Dáda e José Junior, todos percussionistas – em abrir o leque de participações especiais.
Outro destaque do CD é Haiti, um clássico de Caetano Veloso e Gilberto Gil, do disco Tropicália II. Rearranjado pelo grupo para um show de Caetano em 2003, a música se transformou em um reggae dançante e um dos principais hits das apresentações do conjunto. “Essa versão que fizemos ficou muito legal, com o aval desses dois grandes poetas brasileiros. É uma letra que fala de racismo e da analogia entre o Haiti e o Brasil, pois as coisas acontecem da mesma forma aqui”, diz Dáda.
O AfroReggae não é uma banda em que se juntou um grupo de amigos para fazer um som, mas sim que veio de trabalho social. Após a chacina de Vigário Geral, em 1993, a ONG deu origem a vários projetos de inclusão e justiça social. O que eles não sabiam era o sucesso que iam fazer. “Nossa geração tinha como ídolos os traficantes. Se o artista soubesse a influência que tem sobre a sociedade, muita coisa mudaria. Hoje, somos espelhos para os moradores das favelas”, acredita o músico. Além de Vigário Geral, a ONG trabalha em mais nove regiões cariocas.
O grupo surgiu há dez anos e já passou por várias formações. Inicialmente, fazia um trabalho inspirado no grupo baiano de percussão Olodum. O amadurecimento, com o passar dos anos, fez com que o grupo mudasse o estilo e se tornasse conhecido internacionalmente. Além das apresentações no Brasil, o AfroReggae traz no currículo shows em Roma, Nova York, Londres e Paris. “A gente nem esperava tanto. Começamos com o intuito de mudar nossas vidas, éramos um grupo de pessoas fracassadas, e o AfroReggae veio como um grito de liberdade. Estamos orgulhosos de mostrar que o jovem negro da favela tem potencial”, admite Dáda.
Não raro, o talento musical do grupo fica por trás dos projetos sociais. Mas esse é mesmo o objetivo primordial. “O trabalho social é mais importante do que a própria música, a gente levanta essa bandeira. A banda veio em conseqüência e conquistamos o reconhecimento do público”, acrescenta.
oportunidadeO grupo ainda está começando e é uma das mais bem-sucedidas uniões entre atividade cultural e transformação social. “Ainda temos muita estrada pela frente, mas estamos no caminho certo”, acredita Dáda. O grande reconhecimento veio com o convite para abrir o show dos Rolling Stones, no dia 18 de fevereiro, na praia de Copacabana, no Rio. A apresentação da turnê A Bigger Bang é a primeira dos ingleses pela América Latina desde 1998. O evento gratuito estima um público de 1,5 milhão de pessoas.
O grupo foi convidado pela secretária especial de eventos da Prefeitura do Rio, Ana Maria Maia, e pelo produtor do show, Luiz Oscar Niemeyer. “Quantas bandas gostariam de estar no nosso lugar? É um imenso prazer, a gente só tem que agradecer e mostrar o nosso trabalho”, comemora Dáda.
No palco, eles farão a tradicional mistura de música, teatro, dança e arte circense. “Existe uma responsabilidade em abrir o show de uma banda superconsagrada. A gente sempre sobe no palco com aquele frio na barriga, mas acho que nesse será maior ainda”, estima.
Após a apresentação, antes do show dos Stones, o AfroReggae voltará a Londres, onde estréia uma temporada internacional, que inclui ainda Áustria e Índia. Depois, eles viajam pelo Brasil com a turnê do CD Nenhum Motivo Explica a Guerra e lançar o primeiro DVD, dirigido por Cacá Diegues (Deus é Brasileiro).
O grupo espera ansioso a lista dos indicados ao Oscar, que acontece no próximo dia 31. É que o documentário sobre o trabalho sociocultural do AfroReggae, Favela Rising, está entre os 15 pré-selecionados e pode ficar entre os cinco finalistas na competição ao prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Nenhum Motivo Explica a Guerra – Segundo CD do grupo AfroReggae. (Geléia Geral/Warner Music, 2006). Produzido por Chico Neves e Liminha. 10 faixas. Preço médio: R$ 22.