Se Almodóvar, no belo Fale com Ela, fez um filme sobre mulheres e com uma generosa alma feminina, conseguindo a proeza de fazer isso com as personagens femininas em coma, em A Má Educação, ele faz um filme sobre homens. A presença delas praticamente inexiste. No diálogo entre homens – pero no mucho – do filme, há um desconforto com a virilidade e uma busca pelo entendimento da sexualidade masculina colocada em cheque pela violência do mundo.
Outro aspecto que causa desconforto, dessa vez nos espectadores, pela força com que ele é apresentado, é a falta de escrúpulos e a amoralidade, que Almodóvar trabalha muito bem em suas obras. A falta de moral – ponto de partida do filme – é personificada principalmente pelo padre homossexual (Daniel Giménez Cacho) que tenta abusar de um aluno da escola que dirige. O tema polêmico, e tão presente nos dias de hoje, onde este tipo de comportamento está cada vez mais no paredão, está evidente, como uma sombra, em toda a película.
Além das teorias, o último de Almodóvar, também traz de volta as suas obsessões. Há travestis imitando os ídolos do diretor, como Sarita Montiel, há o maneirismo brega e escrachado dos personagens passionais, com suas frases típicas de novela mexicana, há a amoralidade que desnuda a hipocrisia da sociedade, e há uma sensibilidade à flor da pele no trato das relações humanas, do sentimento que a gente costuma chamar de amor.
Há também atores maduros em ótima interpretação, como Javier Cámara, que faz um travesti cômico, e outros em ascenção, como Garcia Bernal (o Che do filme Diários de Motocicleta, de Walter Salles Jr.), que faz Ignacio/Angel, em papel duplo, um travesti e um ator. O que faz lembrar Antônio Bandeiras em A Lei do Desejo, um dos primeiros de Almodóvar, onde o personagem, como também o de Bernal, tem uma forte relação sexual passiva com outro homem. Será esse um dos toques autobiográficos do filme?
Sem a força de outros filmes de Pedro Almodóvar, como o já citado Fale com Ela, Tudo Sobre Minha Mãe, A Má Educação continua sendo uma bela aula de cinema e um filme a ser visto e discutido. (R.A.)