Mais do que um comediante e um cineasta respeitado, o novaiorquino Woody Allen (diretor de Noivo Nervoso, Nova Neurótica e, mais recentemente, Igual a Tudo na Vida) tem duas facetas menos conhecidas de contista e dramaturgo. Exemplo disso é o texto de O Cara, escrito nos anos 70 e que, a partir deste fim de semana, ganha vida no palco do Teatro Goldoni e nova roupagem no espetáculo A Loura e o Detetive. O conto está catalogado na bibliografia do autor, dentro da trilogia de livros Cuca Fundida, Que Loucura e Sem Plumas, lançada no Brasil após ser publicada na revista norte-americana New Yorker.
A montagem de O Cara, adaptada e dirigida por Miriam Virna (responsável pelo bem-sucedido Decamerão – Histórias Quase Santas), chegou a ser apresentada em versão mais simples no Festival de Teatro de Curitiba de 2001. Agora, a trama volta em versão renovada, com o elenco original, encabeçado por Gisele Carméz (a loura) e Douglas Mendes (o detetive).
Miriam é admiradora confessa do cinema de Allen, mas acredita que o trabalho de O Cara, pontualmente, não condiz com o jeito Woody Allen de ser. “Esse conto não se parece muito com os filmes dele. O humor está ali, com uma ironia fina. É uma grande paródia, tem essa coisa do cinema noir, mas é como se fosse um desenho animado”, observa a diretora, que também ganha os holofotes na peça para interpretar números musicais acompanhada do violonista Luís Duarte.
A trilha sonora, destaca Miriam, é também responsável por dar à montagem um sabor do cinema policial noir norte-americano, dos anos 40 e 50. “Os números musicais entram em cena ironizando e dialogando com o espectador ou preparando para a próxima cena. A proposta é bem retrô”, diz.
A linha narrativa do espetáculo acompanha uma mulher loira – ao mais caricato estilo femme fatale – que contrata um detetive particular com o objetivo de encontrar Deus. Ela pretende, assim, conseguir provar a existência do Criador e tirar nota máxima na dissertação de Mestrado em Filosofia que precisa defender. Com tamanha missão em mãos, o detetive sai à busca de pistas e, neste percurso, se depara com os tipos mais variados: um rabino, um assaltante de bancos e o Papa. Todos os distintos personagens são interpretados pelos mesmos dois atores.
A diretora Miriam Virna conclui neste ano Mestrado em Artes Cênicas na Universidade de Brasília (UnB) e aposta no mercado do teatro candango. “Sou uma defensora de Brasília. Quero fazer teatro aqui e levar para fora”, ressalta. Segundo ela, existe um discreto e informal movimento que propulsiona as artes cênicas na capital. “Nós temos descoberto uma linguagem própria. Então, vamos revitalizar a Conchita (Sala Conchita de Moraes, do Teatro Dulcina). Estamos vendo também a Funarte, que deu um novo gás, e o Sesc, que também reabriu há uns três anos”, enumera.
Para Miriam, o teatro de Brasília vem, aos poucos, formando espectadores. “A curiosidade do público está aumentando. Ainda se prestigia mais espetáculos vindos de fora, com atores chamados de globais. É muito bom receber peças de fora. Graças a Deus tem muitas peças com qualidade, mas só não pode ser em detrimento das produções locais”, arremata a diretora que exibe a temporada de A Loura e o Detetive até o dia 30 deste mês.