O concepcionismo, juridicamente falando, é uma doutrina que defende a existência da personalidade do ser humano antes mesmo do seu nascimento. No âmbito religioso, trata-se de uma ordem católica caracterizada pela devoção à Imaculada Conceição. No cinema, é a redenção do diretor brasiliense José Eduardo Belmonte, cobrindo a mancha negra deixada pela insossa estréia em longa-metragem, há dois anos, com Subterrâneos.
Belmonte desmascara o rosto enfastiado de uma juventude confinada à carcaça de um avião pousado no coração do País com o novo longa-metragem A Concepção, uma das boas surpresas desta 38ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, cujo encerramento ocorre na noite de hoje, no Teatro Nacional.
Brasília é desconstruída a partir da trajetória de quatro jovens manipulados pela figura incógnita de X (Matheus Nachtergaele), inicialmente apresentado como um filósofo da pós-modernidade, em seguida coroado líder do “movimento concepcionista” – algo como uma pequena comunidade hippie, despida dos mínimos ideais de paz e amor, cuja constituição prevê a alienação por meio da aquisição de uma nova personalidade a cada dia (com identidades falsas e orgias regadas a uma espécie de elixir alucinógeno com poder de apagar a memória recente).
A trama debocha do modus vivendi do cidadão brasiliense, amarrado à obsessão de passar num concurso e sonhar com a aposentadoria. Belmonte transporta alguns desses jovens “predestinados” ao funcionalismo público a uma era onde a ditadura militar foi substituída pelos fuzis da desesperança e as canções de protestos se resumem à trilha sonora de uma boate.
A Concepção é um bom filme pela leitura extrema, porém verossímel, da busca pela libertação da mente e do corpo. Idéia que não carrega 100% de originalidade no roteiro, escrito sob os pseudônimos de Breno Alex e Luis Carlos Pacca. Em certo ponto, propositalmente ou não, artificializa a espontaneidade e irreverência de Ivan Cardoso e lembra a babel de estereótipos de Finis Hominis (1971), do mestre José Mojica Marins (Zé do Caixão), especialmente na memorável seqüência em que os hippies do movimento Paz & Amor cantarolam: “Todo mundo nu, oba!”.
A produção brasiliense demonstra uma urgência específica – dificilmente pode ser generalizada, devido à declarada ironia relativa à dinâmica da capital federal – cujo mérito está em aprofundar uma meditação semi-antropológica sobre a sociedade do Plano Piloto.