Pouca gente relaciona, mas um ambiente de trabalho harmônico e tranqüilo pode ajudar na reabilitação de quem tem Lesões por Esforços Repetitivos, doença moderna mais conhecida como LER. Esta é a conclusão de um trabalho realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo-USP.
Segundo a agência de notícias da USP, na pesquisa realizada por aquela faculdade, cerca de 30% dos trabalhadores em processo de reabilitação mencionaram que as relações interpessoais com os colegas foram muito importantes na volta às atividades.
O estudo, realizado com um grupo de bancários, pode contudo, segundo os pesquisadores, ser aplicado em outras áreas. “É possível generalizar as conclusões na medida em que a maioria das categorias trabalha com gestão de pessoal”, explica Márcia Elena Rodrigues Gravina, especialista em saúde do trabalhador e que pesquisou o tema da reabilitação em sua tese de doutorado, defendida mo mês passado.
De acordo com Márcia, muitos dos fatores que dificultam a plena reabilitação do trabalhador não são exclusivos da categoria dos bancários, e incluem muitos dificultadores de ordem psicológica e física. “A organização do trabalho é um problema na maioria dos lugares, pois está focada na produção e no lucro, não no bem-estar dos trabalhadores”.
A pesquisadora afirma que, no caso da LER, os fatores físicos estão interligados com os psicológicos”. Já se sabe que um estresse acentuado pode enfraquecer o organismo, deixando o sistema imunológico mais vulnerável e até interferindo na produção de algumas substâncias essenciais para a manutenção do organismo humano como um todo.
gruposEm sua pesquisa, Márcia separou o que dificulta e facilita a reabilitação dos trabalhadores com LER em três grupos principais: o da organização do trabalho, o de fatores psicossociais (como o sentimento de ser útil ao retornar ao trabalho e a compreensão por parte dos colegas do problema que a pessoa tem) e se as empresas e instituições estão adequadas para receber o paciente de volta.
De acordo com o estudo, “as instituições que lidam com a reabilitação (INSS, empresa e assistência médica) não têm colaborado para o sucesso do processo de retorno ao trabalho”.
A sobrecarga a que os médicos do INSS são submetidos os impede de fazer um diagnóstico mais preciso e um acompanhamento mais individualizado. E isso causa impactos diretos na reabilitação. Os pacientes recebem alta com especificações muito genéricas, como “não levantar o braço direito acima de 90º ou não carregar peso”. A pesquisa indica que as recomendações para os pacientes devem ser mais cuidadosas e detalhadas, ajudando assim a preservar mais o trabalhador.
Márcia diz que uma boa avaliação da condição do trabalhador e de suas capacidades faz com que “a reabilitação aconteça de forma muito mais adequada”.
recomendaçõesForam elaboradas também uma série de recomendações para que o retorno ao trabalho obtenha sucesso. O ideal seria que as lesões não ocorressem, principalmente, por meio da prevenção.
Segundo a pesquisadora, os adoecidos ainda sofrem discriminação por conta da doença, e isso faz com que muitos só procurem ajuda tardiamente, quando a LER já se tornou crônica. “Por ser uma doença que não aparece, o paciente é desacreditado. Pensam que ele não quer trabalhar”.