Audácia e falta de recursos financeiros são, visivelmente, os principais adereços que formaram o Cinema Marginal. Júlio Bressane nunca fora fã do rótulo, mas tinha fortes laços de amizade com a turma do movimento radical da produção paulistana. No círculo de amizades de Bressane, estavam nomes como Mojica Marins e o cineasta Ivan Cardoso (na foto, junto com o ator Satã, em frente ao Congresso Nacional, durante o Festival de Brasília de 1978).
Como ele, Carlos Reichenbach também tinha sua filmografia recém-nascida no mesmo berço das intrépidas figuras da Boca do Lixo. Reichenbach, porém, se digna da posição de aprendiz da Boca até hoje. Filmou sem pudores o drama erótico Lilian M., em 1972, e acredita que essa tenha sido sua primeira escola. “Eu, como muitos colegas viemos de lá. O maior mérito foi termos a base do nosso aprendizado na escassez de recursos”, diz.
A estética do cinema underground paulistano começou na década de 70 a ficar ainda mais sujo. Aos poucos a influência do terror trash e bestial de Mojica contaminou todos na Boca. “Ele estava acima de nós. Mojica foi o gênio total da criatividade da Boca do Lixo”, arremata.
Segundo Reichenbach, foi Zé do Caixão quem ensinou a todos esses heróis do cinema nacional, hoje considerados cult, a produzirem. “Vi que era possível fazer um bom filme com 20 latas de negativo, uma câmera e uma kombi. A saída era usar a criatividade”, justifica.
Entre as pornochanchadas e as casuais comédias da época, foram essas as obras que sustentaram um cinema militante, intelectual e de repúdio à hipocrisia política e social durante os anos 70. Somente ao final da década de 80 foram reconhecidos como clássicos do cinema nacional.