Falar em tico-tico remete à natureza, à música, à arte, ou mesmo a uma deliciosa fatia de infância. Explica-se: além de merecer um choro de Zequinha de Abreu (seu mais famoso, Tico-Tico no Fubá), o passarinho irrequieto ganhou traços e virou símbolo pelas mãos abençoadas do desenhista ítalo-brasileiro Angelo Agostini, alçando um vôo alto e zelando pelas crianças da primeira metade do século 20 com as histórias lúdicas da primeira revista em quadrinhos nacional, O Tico-Tico, lançada em outubro de 1905. Agora, a edição comemorativa do centenário de criação da revista acaba de chegar às livrarias, via Opera Graphica Editora, em volume luxuoso (26,5 cm por 36 cm), com encarte na íntegra da primeira revistinha. A edição vem ainda com mais de 800 imagens, depoimentos de famosos, resenhas, entrevistas e um histórico soberbo – capaz tanto de arrancar suspiros de saudades daqueles que cresceram sob sua tutela quanto de encantar os ainda pouco familiarizados com a obra.
Carlos Drummond de Andrade, ele mesmo, dá a melhor definição desta que foi a revista pioneira no gênero do entretenimento e educação: “O Tico-Tico é pai e avô de muita gente importante. Se alguns alcançaram importância, mas fizeram bobagens, O Tico-Tico não teve culpa. O Dr. Sabe-Tudo e o Vovô ensinavam sempre a maneira correta de viver, de sentar-se à mesa e de servir à pátria. E, da remota infância, esse passarinho gentil voa até nós, trazendo no bico o melhor que fomos um dia. Obrigado, amigo!”.
Essas palavras de Drummond – entre depoimentos de outras personalidades, como Ruy Barbosa, Ruth Rocha, Lygia Fagundes Telles, Mauricio de Sousa e Ziraldo – recheiam algumas das 256 páginas deste novíssimo O Tico-Tico 100 Anos – Centenário da Primeira Revista de Quadrinhos do Brasil. As entrevistas são reforçadas com conversas francas com o bibliófilo José Mindlin (colecionador da revista) e Afonso Botari (primeiro leitor de O Tico-Tico).
A qualidade do livro, organizado num trabalho de formiguinha pelos professores Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio dos Santos, compensa o fato de ele ter perdido a chance de celebrar a revista no ano de seu centenário, devido a atrasos especialmente na recuperação do primeiro volume da HQ – que, relançado em papel couché nas cores originais, vem de brinde para o leitor, encartado na contracapa da publicação.
Se o gibi tivesse sido publicado de forma ininterrupta, teria completado, realmente, cem anos de vida. Mas não chegou a tanto. A carreira de O Tico-Tico – as desventuras de Chiquinho, seu primeiro personagem, e mais uma trupe de outras tantas figuras excêntricas – , encerrou-se depois de 56 anos de publicação, e em edições especiais até os anos 70. Ainda assim, a revista se firma como a mais longeva publicação periódica dirigida à infância já publicada no País.
ConcepçãoIdealizada pelo jornalista e caricaturista Renato de Castro, com o poeta Cardoso Júnior e o professor Manoel Bonfim, a proposta da revista foi apresentada a Luís Bartolomeu de Souza e Silva, dono da Sociedade O Malho, que não só a acatou de forma entusiasmada, como ajudou a moldá-la seguindo o formato de outras publicações da época, principalmente a revista francesa La Semaine de Suzette (publicada de fevereiro de 1905 a junho de 1940, e de maio de 1946 a agosto de 1960).
O acerto da idéia ficou amplamente demonstrado pela recepção do público, que forçou a editora a imprimir às pressas uma segunda edição, com o dobro da tiragem inicial de 10 mil exemplares. O preço de capa, inclusive, se manteve inalterado em 200 réis por quase 15 anos, um valor relativamente baixo e que possibilitava a aquisição da revista por várias camadas da população.
personagens O Tico-Tico abrangeu uma comunidade vasta de personagens, que variavam em temática e traço: desde desenhos mais sóbrios, como as histórias de Vovô, ou do Zé Macaco (este, criado por Alfredo Storni, nasceu em 1908 e foi publicado ininterruptamente até 1957, com sua alma gêmea, Faustina). Chiquinho, o primogênito, surgiu de um plágio de Buster Brown, figura das histórias do quadrinista norte-americano Richard F. Outcault. Chiquinho, contudo, ganhou novos traços, personalidade e companheiros na versão brasileira.
Os mais famosos, porém, vieram a ser os garotos “traquinas” Bolão, Azeitona e Reco-Reco. O trio foi criado pelo cartunista Luis Sá – levemente inspirado em Popeye – nos anos 30, quando também surgiriam versões nacionais de celebridades como o Gato Felix e Mickey Mouse, cujas histórias acompanhavam jogos de passatempo.