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Cantora vai além das comparações comuns

Arquivo Geral

23/10/2004 0h00

Primeiro, esqueça essa bobageira de que Maria Rita é uma cópia da mãe, Elis Regina. Esta relação – que provoca uma reação burra e restritiva em alguns que, por aquela circunstância, não se permitem ouvir a artista – começa a se diluir aos poucos. Se analisarmos a cantora, sem viés comparativo, confirmaremos que ela é talentosa sim e está construindo, com firmeza, sua maturidade no palco.

Isso foi o que se viu no show que ela apresentou nas noites de quinta e sexta-feiras, no Teatro Nacional. Se a maternidade amadurece, e Maria Rita teve seu primeiro filho há três meses, a prova estava patente no espetáculo. Solta e descontraída, a artista desfilou músicas de seu único CD e algumas novidades, misturando a serenidade de seu momento pessoal com um vigor, em alguns momentos, quase teatral.

A formação incomum dos músicos, contrabaixo (Silvinho Mazzuca), piano/orgão (Tiago Costa), percursão (Da Lua) e bateria (Cuca Teixeira) – sem guitarras –, impõe um clima mais intimista às composições. E Maria Rita subiu ao palco, surpreendendo com a mudança da ordem das músicas, trocando a mais suingada A Festa, de Milton Nascimento, pela dulcíssima, Cupido, de Cláudio Lins, filho de Ivan Lins, na abertura do show.

Os bons instrumentistas garantiram um apoio luxuoso para que Maria Rita desaguasse seu prazer de cantar. Com fé, como na esperançosa Vero, uma das faixas interativas de seu CD, em que ela chorou, pensando no filho – que ficou com a avó paterna. Ou com paixão e teatralidade, como em Santa Chuva, de Marcelo Camelo (líder do Los Hermanos), quando ela interpretou com vigor o desprezo pela pessoa amada.

As surpresas no repertório ficaram por conta de uma versão sensual de A História de Lily Braum, de O Grande Circo Místico (Edu Lobo e Chico Buarque), mas que ficou aquém da original a cargo de Gal Costa; Todo Carnaval Tem seu Fim, mais uma do grupo Los Hermanos; e do belo samba Conta Outra, de um novo compositor paulista chamado Edu Tedeski – essa sim a melhor novidade do espetáculo.

O gestual de Maria Rita se dividia entre os movimentos pendulares do corpo e pescoço, nas composições mais lentas, e num dinâmico vaivém nos momentos mais agitados. Lembrava muitas vezes, com malemolência, uma bailarina flamenca. Tudo isso uma prova de que Maria Rita domina cada vez mais a geografia do palco.

Resumo da ópera: descarte as más línguas. O show, mais do que azeitado de Maria Rita, confirma uma presença luminosa na MPB. Um talento que a história há de confirmar.

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    Isso foi o que se viu no show que ela apresentou nas noites de quinta e sexta-feiras, no Teatro Nacional. Se a maternidade amadurece, e Maria Rita teve seu primeiro filho há três meses, a prova estava patente no espetáculo. Solta e descontraída, a artista desfilou músicas de seu único CD e algumas novidades, misturando a serenidade de seu momento pessoal com um vigor, em alguns momentos, quase teatral.

    A formação incomum dos músicos, contrabaixo (Silvinho Mazzuca), piano/orgão (Tiago Costa), percursão (Da Lua) e bateria (Cuca Teixeira) – sem guitarras –, impõe um clima mais intimista às composições. E Maria Rita subiu ao palco, surpreendendo com a mudança da ordem das músicas, trocando a mais suingada A Festa, de Milton Nascimento, pela dulcíssima, Cupido, de Cláudio Lins, filho de Ivan Lins, na abertura do show.

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    As surpresas no repertório ficaram por conta de uma versão sensual de A História de Lily Braum, de O Grande Circo Místico (Edu Lobo e Chico Buarque), mas que ficou aquém da original a cargo de Gal Costa; Todo Carnaval Tem seu Fim, mais uma do grupo Los Hermanos; e do belo samba Conta Outra, de um novo compositor paulista chamado Edu Tedeski – essa sim a melhor novidade do espetáculo.

    O gestual de Maria Rita se dividia entre os movimentos pendulares do corpo e pescoço, nas composições mais lentas, e num dinâmico vaivém nos momentos mais agitados. Lembrava muitas vezes, com malemolência, uma bailarina flamenca. Tudo isso uma prova de que Maria Rita domina cada vez mais a geografia do palco.

    Resumo da ópera: descarte as más línguas. O show, mais do que azeitado de Maria Rita, confirma uma presença luminosa na MPB. Um talento que a história há de confirmar.

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