Costuma-se dizer que o violão da bossa nova foi o grande divisor de águas da cultura brasileira para o exterior. Ledo engano. Muito antes de o carioca Tom Jobim produzir o baiano João Gilberto, o mineiro Ary Barroso já era referência mundial como música brasileira. E foi a luso-brasileira Carmem Miranda quem mostrou ao mundo, ainda nos anos 30, quem era o maior pintor do nosso cancioneiro popular. E não é preciso muito esforço para esta conclusão: basta lembrar que são dele as imortais Aquarela do Brasil (uma espécie de hino nacional não-oficial), Na Baixa do Sapateiro, Risque, Rio de Janeiro (Isto É o Meu Brasil) e Isto Aqui o que É?, entre tantas outras músicas.
Inventor do samba-exaltação, Ary Barroso estaria completando cem anos no último dia 7 de novembro; e a atriz, cantora, diretora e produtora Marília Pêra não fez por menos ao homenageá-lo com um primoroso espetáculo. O público brasiliense poderá assistir – amanhã, e se correr muito para conseguir um ingresso – a excelente produção que enaltece o centenário de Ary Barroso. A entrada é franca, mas o convite deve ser adquirido mediante troca por um brinquedo ou um livro – que serão doados às brinquedotecas do Distrito Federal.
Ary Barroso foi a maior estrela da constelação formada na era de ouro da Música Popular Brasileira (toda a década de 30 e o começo dos anos 40). Entre nossos compositores, ele foi o primeiro a trabalhar e a se tornar conhecido fora do Brasil.
Como compositor, Ary não hesitava em substituir uma letra quando tinha certeza que a sua podia ser melhor. Assim, quando ouviu Lamartine Babo cantar Na Virada da Montanha (“Na grota funda/Na virada da montanha/Vai haver muita façanha/Com o mulato da Raimunda”), ele escreveu, na hora, na mesa do bar, a letra de um dos maiores sucessos de sua carreira: No Rancho Fundo.
Essa trajetória está no espetáculo que Marília Pêra encenou recentemente, em Ubá (MG), terra natal do artista e que em Brasília terá acompanhamento da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, sob a batuta de Sílvio Barbato.