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Câmera na mão, brasileiro na cabeça

Arquivo Geral

14/10/2005 0h00

A jovem carreira do cineasta paulistano Fernando Meirelles no cinema – com apenas quatro longas-metragens na bagagem –, foi digna de culto ao centralizar o blockbuster Cidade de Deus num momento entre a retomada e a popularização da produção nacional. Alfabetizado no audiovisual pela escola de vídeos publicitários, Meirelles acrescentou ao cinema nacional novos planos-seqüências e o estilo de narrativa – adotado, em parte, do cinema inglês dos anos 90 de Danny Boyle e Guy Ritchie. Algumas dessas operacionalidades que fizeram Meirelles figurar entre os cinco melhores diretores no Oscar 2004 são passadas a limpo em película genuinamente norte-americana em O Jardineiro Fiel, primeiro trabalho de Hollywood encabeçado pelo cineasta brasileiro.

A produção, que estréia hoje nas telas brasileiras, tem roteiro pautado pela história original de John Le Carré, célebre criador norte-americano de romances de espionagem. O Jardineiro Fiel combina a trama intrigante, por vezes dramática, de Carré com a liberdade de criação (estética) de Meirelles. O brasileiro não escapa muito ao estilo que o consagrou com Cidade de Deus. Apesar de ser composto por um ritmo menos frenético que o da superprodução nacional, Meirelles abusa em tomadas com câmera na mão e panorâmicas (180 ou 360 graus). Outro aspecto que aproxima as duas produções do diretor está nas lentes de César Charlone. O fotógrafo é o mesmo e a perspectiva da pobreza (da favela carioca e , aqui, dos subúrbios do Quênia) apresenta certa semelhança.

Contudo, Meirelles consegue colocar uma leveza particular – exigida pela trama – nos planos abertos das paisagens (algumas muito bonitas, apesar de naturalmente áridas) de O Jardineiro Fiel. Pássaros voam em debandada após os créditos iniciais. A cena se repete em momentos-chave do enredo, que focaliza a personalidade de Justin Quayle (vivido pelo competente Ralph Fiennes), diplomata do Alto Comissariado britânico que se envolve com a revoltada militante política Tessa. O roteiro joga a história para a frente e pula para o trágico assassinato de Tessa, já esposa de Quayle.

A trama fica picotada e dispersa, para depois colocar o fio dramático em harmonia para o perfeito entendimento do espectador. No meio do caminho ela se desvia da rota, que focaliza o trabalho desenvolvido por Tessa contra poderosos empresários de indústrias farmacêuticas que distribuem remédios para o Quênia. O ofício é mantido em segredo e faz pipocarem dúvidas na cabeça de Justin até sobre a fidelidade da mulher. Meirelles conclui bem a trama, cujo desfecho, apesar de previsível, cai bem na narrativa. O quebra-cabeça montado por Fernando Meirelles perde algumas peças, mas não desmerece a obra.

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    14/10/2005 0h00

    A jovem carreira do cineasta paulistano Fernando Meirelles no cinema – com apenas quatro longas-metragens na bagagem –, foi digna de culto ao centralizar o blockbuster Cidade de Deus num momento entre a retomada e a popularização da produção nacional. Alfabetizado no audiovisual pela escola de vídeos publicitários, Meirelles acrescentou ao cinema nacional novos planos-seqüências e o estilo de narrativa – adotado, em parte, do cinema inglês dos anos 90 de Danny Boyle e Guy Ritchie. Algumas dessas operacionalidades que fizeram Meirelles figurar entre os cinco melhores diretores no Oscar 2004 são passadas a limpo em película genuinamente norte-americana em O Jardineiro Fiel, primeiro trabalho de Hollywood encabeçado pelo cineasta brasileiro.

    A produção, que estréia hoje nas telas brasileiras, tem roteiro pautado pela história original de John Le Carré, célebre criador norte-americano de romances de espionagem. O Jardineiro Fiel combina a trama intrigante, por vezes dramática, de Carré com a liberdade de criação (estética) de Meirelles. O brasileiro não escapa muito ao estilo que o consagrou com Cidade de Deus. Apesar de ser composto por um ritmo menos frenético que o da superprodução nacional, Meirelles abusa em tomadas com câmera na mão e panorâmicas (180 ou 360 graus). Outro aspecto que aproxima as duas produções do diretor está nas lentes de César Charlone. O fotógrafo é o mesmo e a perspectiva da pobreza (da favela carioca e , aqui, dos subúrbios do Quênia) apresenta certa semelhança.

    Contudo, Meirelles consegue colocar uma leveza particular – exigida pela trama – nos planos abertos das paisagens (algumas muito bonitas, apesar de naturalmente áridas) de O Jardineiro Fiel. Pássaros voam em debandada após os créditos iniciais. A cena se repete em momentos-chave do enredo, que focaliza a personalidade de Justin Quayle (vivido pelo competente Ralph Fiennes), diplomata do Alto Comissariado britânico que se envolve com a revoltada militante política Tessa. O roteiro joga a história para a frente e pula para o trágico assassinato de Tessa, já esposa de Quayle.

    A trama fica picotada e dispersa, para depois colocar o fio dramático em harmonia para o perfeito entendimento do espectador. No meio do caminho ela se desvia da rota, que focaliza o trabalho desenvolvido por Tessa contra poderosos empresários de indústrias farmacêuticas que distribuem remédios para o Quênia. O ofício é mantido em segredo e faz pipocarem dúvidas na cabeça de Justin até sobre a fidelidade da mulher. Meirelles conclui bem a trama, cujo desfecho, apesar de previsível, cai bem na narrativa. O quebra-cabeça montado por Fernando Meirelles perde algumas peças, mas não desmerece a obra.

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