A história de Brasília não é estanque. Quanto mais se a aborda, maiores são as entrelinhas e bastidores em torno de uma localidade tão exótica que, diferentemente de quase todas as cidades do mundo – que foram se formando a partir de agrupamentos de pessoas –, foi construída primeiro para, somente depois, receber seus cidadãos.
O sociólogo carioca Márcio de Oliveira, que mora no Distrito Federal desde 1964, é um desses estudiosos apaixonados pelo tema Brasília. Em O mito na trajetória da nação, ele se debruça a esmiuçar as origens da capital de uma forma quase psicanalítica.
Faz sentido, quando uma das versões sobre a idéia de se construir no Planalto Central a capital definitiva do Brasil é justamente aquela fundamentada no sonho do apóstolo Dom Bosco. Sonhos, em quaisquer acepções, sempre oferecem um campo farto para leitura de linguagens condensadas e mensagens subliminares. E por que não examinar Brasília, também, sob essas luzes de natureza profundamente psicanalítica?
“A cidade hoje é um microcosmo do Brasil naquilo que existe de positivo e naquilo que ainda é necessário melhorar”, resume, no prefácio, Brasilmar Ferreira Nunes, coordenador da Pós-Graduação do Departamento de Sociologia da UnB.
E são esses elementos que Márcio de Oliveira analisa, ponto a ponto, em uma abordagem arrebatadora que começa na Missão Cruls e vai até nossos dias. Mostra, em diferentes aspectos, a singularidade de Brasília e o que ela encerra da alma brasileira. Brasília: O mito na trajetória da nação – De Márcio de Oliveira. Editora Paralelo 15, 274 páginas, R$30.