A vida e a obra de um dos mais importantes psicanalistas do século 20, o suíço Carl Gustav Jung (1875-1961), que revolucionou as teorias sobre a psique humana, são o tema de Jung e Eu, monólogo interpretado por Sérgio Britto, com texto e direção de Domingos de Oliveira. A peça, que vai ganhar uma versão cinematográfica em breve, será apresentada de hoje até o dia 20 de novembro, no Centro Cultural Banco do Brasil.
O texto foi escrito especialmente para Britto, que comemora neste mês 60 anos de carreira. Com 82 anos, o ator mostra o talento e a versatilidade em cima do palco ao interpretar, alternadamente, o ex-discípulo do Pai da Psicanálise, Sigmund Freud, com quem rompeu depois de anos de trabalho conjunto, e um ator chamado Leonardo Svoba. “Os óculos estão sempre por perto, na mão ou no bolso. É o ponto de referência, uma espécie de símbolo. Quando sou Jung uso, quando sou o ator, não uso”, explicou o ator, em entrevista ao Jornal de Brasília.
Svoba é um ator que está há dois anos sem trabalhar e liga para o amigo e dramaturgo Oscar em busca de um novo papel. Então, surge o convite para que ele – alguém que nunca se interessou por psicologia, nem temas do gênero – venha a interpretar Jung numa peça. “Ele acha Jung complicado, intelectual demais”, revela o ator. Assim como o personagem, Britto também não conhecia Jung e teve a mesma reação. “Esse foi nosso primeiro ponto em comum. Então, comecei a ler livros, que me serviram para esclarecer quem era esse Jung, o que ele fez”, lembra.
Jung trabalha muito com os sonhos e o ator conta que depois que leu os livros sobre o psiquiatra, voltou a sonhar. “Chego a rever meu passado nos meus sonhos”, conta. Outro ponto em comum foi o fato de Jung defender a libido, o tesão não só no sexo, mas pela vida, pela criatividade, pelo prazer de viver. “Eu tenho essa libido pelo teatro. Sempre reclamaram comigo disso, terminei pelo menos dois relacionamentos porque tinham ciúme do teatro, que é minha grande paixão”, diz.
Para o ator, um dos pontos altos da peça é quando Jung conta sobre a relação com Freud e o rompimento dos trabalhos conjuntos. “Outra parte interessante é no final, quando não se destingue mais quem é o ator e quem é Jung”, conta.
As poltronas do CCBB vão ficar vazias. É que as 94 pessoas que vão assistir ao espetáculo, a cada dia, vão se sentar em cadeiras colocadas em cima do palco. “Essa peça exige essa proximidade com o público, esse olhar no olho”, acredita. “O público se diverte e se emociona, além de conhecer um pouco mais de si”, acrescenta.
Esta é a segunda parceria com Domingos de Oliveira. A primeira foi no monólogo Sérgio 80, quando o ator fez 80 anos. “Um encontro que deu certo. Ele escreve de maneira bem clara e mostra todo o pensamento de Jung”, define. Este novo monólogo foi escrito pelo autor em um mês e ensaiado por Sérgio em 25 dias. “Parece pouco, mas foi um dos personagens mais difíceis da minha carreira. Ao mesmo tempo, tinha um material rico e provocador, que mexeu comigo”, revela.
Domingos e Britto pretendem levar para o cinema esta peça, mas procuram outro ator para fazer o papel de Svoba. “O cinema não permite essa troca de personagens”, opina.
Em breve, o ator aparecerá nas telonas, no filme O Amor Maior que o Mundo, de Cacá Diegues. Quanto às novelas, não tem saudades. “Ocupa muito tempo por causa das filmagens. Hoje, dou prioridade ao teatro”, diz Britto, que está nas telinhas na reprise de Xica da Silva, no SBT. Apaixonado por teatro, se considera um “atleta teatral”.
Paralelamente à peça, haverá um ciclo de palestras sobre Jung, com as psicólogas Valéria Mori e Virgínia Turra. Os debates, com entrada franca, serão realizados amanhã, sexta-feira e nos dias 16 e 18 de novembro, sempre às 17h.
serviço
Jung e Eu – Monólogo com Sérgio Britto. Texto e direção de Domingos de Oliveira. De hoje até o dia 20 de novembro, de terça a sábado, às 21h, e domingo, às 19h, no Teatro do Centro Cultural Banco do Brasil (Setor de Clubes Sul, trecho 2). Ingressos a R$ 15 (inteira). Mais informações: 3310-7087.