Há 43 anos no Brasil, o professor Nars chegou aqui em 1962, depois que o então presidente brasileiro Jânio Quadros disse, em 1961, ao líder egípcio Gamal Abdel Nasser, que o homenagearia criando uma cadeira de estudos árabes na Universidade de São Paulo (USP). Como era especialista em cultura árabe, Helmi Nars foi convidado pelo governo egípcio para assumir a cadeira. Mas impôs uma condição: ficaria aqui por um mês, para estruturar o curso. “Estou há 43 anos”. O professor diz que esse trabalho com o Alcorão coroou sua carreira. “É o melhor presente, por ser divino. Não foi planejado, fui escolhido para essa missão”. Helmi Nars não gosta da referência ao terrorismo dada pela mídia aos fundamentalistas que se escondem por trás do Alcorão para lançar bombas em populações inocentes. Para ele, a edição brasileira do livro vai ajudar a mostrar que o Alcorão é uma base para quem quiser entender a religião islâmica. A seguir, alguns trechos da entrevista concedida por ele, ontem, na sede da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, em Brasília.
O livro “A repercussão desta edição brasileira levou muçulmanos portugueses a requererem uma edição no português de Portugal. Ela sairá em breve. O Alcorão é o início, é a base para os que querem conhecer a religião islâmica. A edição brasileira é um livro legítimo e para o futuro. Digo que é legítimo porque foi feito na Arábia Saudita. O Alcorão só tem legitimidade se for editado e revisado lá.”
Fundamentalismo “O Alcorão é contra o fundamentalismo, pois fala da coisa humana. Trata a pessoa, a família, as nações, o mundo inteiro. Os juros são proibidos pelo Alcorão, assim como as drogas e o álcool. Ele ensina como se casar, como respeitar os pais, os acordos entre as nações. Mostra como se deve vender e até como deve ser a guerra, se necessária.”
Terrorismo”Fico muito triste quando se fala de islâmicos como terroristas. O Alcorão prega exatamente o contrário disso. Nesse caso, terrorismo é uma contradição do Alcorão. Essa edição brasileira é um passo importante para mostrar qual é o caminho certo e que o terrorismo é o caminho errado. Deus ordena a justiça, a benevolência e a liberdade com os parentes. E proíbe a agressão, a corrupção e a obscenidade.”
Sincretismo “O Alcorão surge como prova da eloqüência árabe. Quando ele surgiu, com a vinda de Mohammed (Maomé), a cultura árabe estava em seu apogeu, grande literatura, grande poesia, mas o que ficou foi o Alcorão. Os profetas vieram em momentos de apogeu das civilizações. Moisés estava no ápice da magia no Egito e, com seu cajado, foi mais poderoso que os sacerdotes do faraó. Deus deu esse poder a ele. Quando Jesus apareceu, o Império Romano estava no apogeu da medicina e Deus deu a ele o poder de curar cegos de nascença, leprosos e de ressuscitar um morto. A medicina não consegue isso. O Alcorão é o único livro que trata as outras religiões como iguais.”
Como ler “Recomendo que a leitura pelos brasileiros se inicie no primeiro capítulo e depois passe para a o 12 e o 19. Neles conta-se a história da criação dos povos, do dilúvio, do nascimento de Maria – nenhum outro livro fala assim de Maria –, do nascimento de Jesus, além de histórias de Moisés, Jacó, Abraão, Isaac, Adão e José do Egito. No Alcorão está toda a história da humanidade.”