O novo filme de Walter Salles, Diários de Motocicleta – com pré-estréia no próximo sábado e entrada em circuito nacional no dia 7 de maio –, totalmente falado em espanhol, foi inspirado nos relatos Notas de Viaje, de Che Guevara, e Con el Che por Sudamérica, de Alberto Granado, escritos durante a viagem que os amigos fizeram em 1952, pela América Latina, sobre uma motocicleta e sem nenhum dinheiro no bolso.
Convidado pelos produtores Robert Redford e Michael Nozik para encabeçar o projeto, Salles (Central do Brasil, Abril Despedaçado) não se sentiu pronto para o desafio até fazer uma pesquisa que durou dois anos.
Esse tempo foi suficiente para o diretor ler todas as biografias sobre Guevara e ir à Argentina, Chile, Peru e Cuba. Na capital cubana, Havana, conheceu Alberto Granado, hoje com 83 anos, e a família de Che. A equipe reconstituiu o caminho percorrido em 1952, viajando pela Patagônia, cruzando os Andes e o deserto de Atacama e, finalmente, chegando a uma colônia de leprosos no Peru.
Essa pesquisa foi fundamental para que o roteirista, José Rivera, pudesse desmistificar o revolucionário Che. O que se vê na telona é uma dupla de amigos metida em trapalhadas e que vai descobrindo, entre os vários tombos de motocicleta, a cara e os problemas dos latino-americanos. Ernesto não conseguia mentir. Alberto obtinha um prato de comida contando mentiras. Ernesto se dava mal com as mulheres. Alberto não podia ver um rabo-de-saia. Ambos se incomodavam com o infortúnio alheio. A história tem leveza, humor e, ao mesmo tempo, seriedade. “É uma lúcida carta de amor endereçada à América do Sul”, descreveu o roteirista.
O filme foi feito em mais de 30 locações entre a Argentina, Chile e Peru. O curioso é que em Machu Picchu e Cuzco (Peru), os atores foram estimulados a se misturar com os habitantes e o resultado, espontâneo, encaixou-se no roteiro.
Nos papéis principais, o mexicano Gael García Bernal (Amores Brutos e E Tua Mãe Também), que interpreta Ernesto Che Guevara, e Rodrigo de la Serna, como Alberto Granado. Rodrigo é parente de Che, primo de segundo grau do guerrilheiro – algo que Walter Salles só descobriu após selecioná-lo para o papel. O diretor classificou Gael como um dos importantes catalisadores da aventura. “Como Ernesto – à época, um estudante de Medicina, asmático, que queria comemorar seu aniversário ao lado de leprosos que ajudava a cuidar na Colônia San Pablo, na Amazônia peruana –, o ator estava pronto para atravessar o Rio Amazonas a nado, contra a correnteza”, comparou o diretor.