Maria Clara Diniz, Maria do Carmo Ferreira da Silva, Sol Oliveira, Vitória Rocha Assumpção. O que essas quatro mulheres têm em comum? Além de terem sido as mocinhas das últimas quatro novelas das oito da Globo, todas têm na ficha pelo menos uma passagem pela polícia.
As injustiças praticadas contra as heroínas são artifícios dramáticos que definem desfechos e que deixam a trama empolgante. Mas há outras coincidências: as quatro protagonistas foram para trás das grades graças a algum vilão e, quando deixaram o cárcere, saíram de lá dispostas a mostrar que não se brinca com a dignidade de uma mocinha sem receber o troco.
“O telespectador torce pela heroína, seja ela vítima de uma injustiça social ou de uma traição amorosa”, fala Silvio de Abreu, autor de Belíssima, que pôs a personagem Vitória (Cláudia Abreu) nessa situação difícil. “O maior fator de identificação do público com ela são os valores éticos e morais que carrega”.
O autor, apesar de já ter usado este recurso dramático duas vezes em Rainha da Sucata (1990), diz que o objetivo não é apenas criar um artifício para aumentar a audiência: “Eu não tenho recursos em uma caixinha para ir inserindo na trama. Penso na história como um todo. Dependendo do tema, a própria novela acaba exigindo que certos conflitos aconteçam”.
Outro autor, Aguinaldo Silva, fala sem pudores que fazer a mocinha sofrer levanta a audiência, mas afirma ter feito isso só em Senhora do Destino (2004). Segundo ele, nas novelas já é uma tradição fazer com que a heroína sofra bastante – e injustamente. “A prisão da Do Carmo (Suzana Vieira) já estava prevista na sinopse. Mas fazê-la encontrar com a Nazaré (Renata Sorrah) foi uma oportunidade de sacudir a trama”.
Sílvio de Abreu completa: “Isso aumenta a torcida pela heroína que sofreu uma injustiça e que deverá lutar por liberdade e provar sua inocência”. Em Rainha da Sucata, a prisão de Maria do Carmo (Regina Duarte) levou a protagonista a descobrir o segredo de Laurinha (Glória Menezes). “Na prisão uma mulher lhe contou que Adriana (Claudia Raia) e Rafael (Maurício Mattar) não eram filhos do Betinho (Paulo Gracindo). Viu como a cadeia é útil?”.
HerançaA sofredora da vez, Vitória (Cláudia Abreu), não pretende seguir os passos de Sol (Deborah Secco), que foi humilhada à exaustão em América, de Glória Perez. Depois de virar refém em uma rebelião e de ficar entre a vida e a morte, a ex-menina de rua sairá da situação disposta a passar como um trator por cima de todos os que abusaram de sua bondade.
Ela acorda no hospital, revê a sua família e decide que vai pegar a herança que Pedro (Henri Castelli) lhe deixou. Em uma conversa com Tadeu (Thiago Martins), Vitória diz que vai alugar uma casa e que pagará a faculdade do rapaz.
“Vitória foi criada na rua e já passou pela experiência de ser presa antes de conquistar a serenidade em sua vida”, lembra Silvio de Abreu. “Essa Vitória, que está no ar, é uma mulher que conhece muito bem este universo e sabe que, se não for forte o suficiente, não conseguirá sobreviver a este pesadelo”. E ela tomará a frente das investigações sobre sua prisão com a ajuda de Djulian (Giácomo Pinotti).