Sucesso de público e crítica na temporada no Rio de Janeiro, o espetáculo Barrela, escrito pelo dramaturgo paulista Plínio Marcos, aos 22 anos, estréia em Brasília neste fim de semana no Teatro da Caixa. Baseada em fatos reais ocorridos numa cadeia da cidade de Santos (SP), a peça é estrelada pelos atores Jonas Bloch, Heitor Martinez, Patrick de Oliveira, Silvio Guindane, Roney Vilela, Bruno Sobral e George Lopes, com direção de Roberto Bontempo.
O espetáculo retrata o dia-a-dia de seis carcerários: Portuga (Jonas Bloch), Bereco (Roney Vilela), Bahia (Heitor Martinez), Tirica (Silvio Guindane), Fumaça (George Lopes) e Louco (Bruno Sobral). Num ambiente truculento, a violência se configura como o passatempo e parâmetro de vida dos carcerários. Nos diálogos, os personagens vão mostrando as inseguranças, medos, verdades e suas próprias histórias de vida. A disputa pelo poder revela a ganância do homem, mesmo em condições subhumanas. O clímax do espetáculo ocorre quando um jovem é colocado na cela, depois de ter brigado num bar, e é violentado sexualmente pelos companheiros de carceragem.
Plínio Marcos é o equivalente paulista de Nelson Rodrigues, segundo crítica de Jeferson Lessa, de O Globo. A comparação é justa. Seus personagens são demasiadamente humanos e urbanos. De acordo com o dicionário, barrela quer dizer “o tirar das manchas da reputação de alguém; grande limpeza”. Tipos como prostitutas, ladrões, cafetões, homossexuais caricatos e assassinos povoam os textos de Plínio, que também é autor de Navalha na Carne, Dois Perdidos Numa Noite Suja e Quando as Máquinas Param.
Barrela é baseada numa história ocorrida na década de 50, na cidade de Santos. A peça foi escrita em 1958, mas mantém-se atual pela força do texto e o estilo de seus personagens. Depois de sair da cadeia, o rapaz que fora violentado vinga-se de todos os seus algozes, matando um por um. Na peça, isso não acontece.
Jonas Bloch faz um Portuga que acabou preso depois de ter matado o amante de sua esposa. Ele tenta sobreviver em meio ao clima hostil da cela. Portuga é o mais político de todos os personagens, sabe jogar com as palavras e consegue chegar aonde quer.
Tirica, interpretado por Silvio Guindane, tem o ódio despertado quando vem à tona seu passado gay durante um período da vida que passou num reformatório. Heitor Martinez interpreta o Bahia, tipo oportunista e vira-casaca. Quanto aos demais personagens, contribuem de forma sensível para formar um universo em que regras inconcebíveis parecem fadadas a se perpetuar.
Esta montagem marca a volta de Jonas Bloch aos papéis dramáticos no teatro. “Para mim está sendo muito importante fazer esse espetáculo, porque é um trabalho que está sendo muito bem realizado”, contou o ator, que precisou aprender o sotaque português, sem que a pronúncia virasse uma coisa caricata. Jonas diz que o universo da peça é um reflexo do que acontece nas relações sociopolíticas de um país, por exemplo. A violência exacerbada e o jogo político para se manter em meio à barbárie social em que vivemos são retratadas de forma análoga na história.
A peça está sendo produzida pelos atores e personagens de Barrela Patrick de Oliveira, Bruno Sobral e George Lopes. “O bacana é o aprendizado que eu estou tendo com esses grandes atores”, destacou o ator e produtor Patrick. O resultado parece agradar.