Tão cedo não vai aparecer, numa edição do Big Brother Brasil, um participante tão carismático como o baiano Jean Wyllys. Até hoje tratado com o mesmo carinho nas ruas – as pessoas pedem autógrafos, fotos e declarações –, ele resolveu escrever e Ainda Lembro.
É seu segundo livro, e, mesmo que pareça ter sido feito às pressas, é um mergulho dedicado do autor em suas memórias, das mais distantes às recentes. Que ninguém espere curiosidades dos bastidores do programa ou revelações bombásticas sobre o longo tempo de confinamento.
“Estou consciente do risco que estou correndo”, avisa. “Mas escrever me ajudou a compreender tudo o que aconteceu comigo depois da casa. Foi uma maneira de organizar minha própria vida”.
Na primeira parte, estão crônicas sobre a infância em Alagoinhas, a paixão pelas mulheres (Grazi e Pink entram na lista), o difícil convívio com o pai, e até sua amizade, às vezes incompreendida, com o candidato Alan. “Escrever sobre Alan foi uma forma de dar um ponto final a essa história e uma provocação”, conta o autor.
sobre alan”Os gays trepam (e não é com qualquer um), mas também amam, odeiam, trabalham, frustram-se, divertem-se e constroem amizades verdadeiras com outros gays, ou com heterossexuais”, escreve. “Não, não me apaixonei por Alan. Se tivesse me apaixonado, não teria vergonha de afirmá-lo em público (o problema seria meu, pois sofreria de um amor não correspondido)”.
A narrativa transcorre em ritmo que situa o leitor no que Jean está contando. “Sair da casa, atravessar seu corredor escuro… como um vencedor, trouxe-me uma alegria, uma satisfação e uma felicidade que palavra alguma jamais irá conseguir representar a contento”, diz em um trecho. “A sensação era a de ter chegado ao fim do labirinto, à porta de saída, sem ter sido sequer arranhado pelo monstro que não deixou os outros moradores inteiros”.
Um dos capítulos fala sobre sua amizade com Pink: “Amei (e amo) Pink e Grazi, e esse amor me serviu de alimento para resistir aos maus momentos daquela experiência. Tratando-se exclusivamente de Pink, a experiência serviu para descobrir que ainda posso sofrer de amor por uma mulher. Hoje, esse sentimento mudou de cor, está menos intenso graças aos compromissos que nos põem distantes um do outro”.
Ele também conta que sempre foi distante do pai por vários motivos, entre eles, a homossexualidade e o envolvimento dele (o pai) com bebida. Jean confessa ainda que sonhou com o pai diversas vezes dentro da casa do BBB, mas diz que antes havia tido chance de recuperar esse tempo perdido. Antes do pai morrer de câncer, eles passaram nove meses juntos, “uma espécie de parto ao contrário”.
Assim como se mostrou na casa, Jean se revela: “Eu, como todo escritor — embora alguns finjam que não —, quero ser lido, circular, estar nas prateleiras das livrarias; quero ser Paulo Coelho”. Vale conferir.
Ainda Lembro – De Jean Wyllys. Editora Globo,
R$ 14,90