No próximo dia 27, a cantora Leila Maria vai abrir a Parada Gay, às 13h, na Praia de Copacabana, Rio de Janeiro, com a música Bom é Beijar. A canção escolhida não podia ser mais oportuna. No cinema ou no teatro, personagens masculinos têm trocado beijos calorosos e desafiado um preconceito que parece, cada vez mais, ter os dias contados.
Macaulay Culkin, por exemplo, fez a sua parte em Party Monster, pespegando um beijaço no parceiro. Em Cazuza — O Tempo Não Pára, o cantor, vivido por Daniel de Oliveira, “mata a sede na saliva” de seu namorado Serginho, seguindo à risca um dos versos de Todo Amor que Houver Nessa Vida. A cena foi rodada com uma música de Astor Piazzolla para tranqüilizar os atores, mas nem era preciso.
“Foi a cena mais divertida que fizemos”, conta Eduardo Pires, que vive o Serginho. “Tenho orgulho de participar de um filme em que aparecem dois homens se beijando. Sei que estou contribuindo para acabar com o preconceito. Me sinto um artista de verdade”.
Durante a apresentação da peça O Santo Parto, em cartaz no Rio, não é a “gravidez do padre” ou as críticas à Igreja Católica que causam maior burburinho na platéia. É a tal cena de beijo, trocado entre os atores Sérgio Marone e Roberto Bomtempo, a razão de tanta polêmica.
“As pessoas já sabem e mesmo assim se surpreendem”, observa Bomtempo, que pela primeira vez na carreira vive a experiência de beijar um homem em cena. “Sentimos um frisson vindo da platéia. A imagem ainda mexe com as pessoas”.
Sérgio Marone, que vive na peça o metaleiro apaixonado pelo padre, não teve dúvidas em aceitar o papel e espera que o teatro continue quebrando tabus: “O beijo não é problema para mim e não devia ser para ninguém. O público tem de se acostumar com isso”.
O sexólogo carioca Arnaldo Risma elege a hipocrisia como a razão para o preconceito que ronda o beijo entre homens: “A hipocrisia é a vilã. As pessoas querem manter uma imagem para a sociedade e fazem tudo escondido. Muitas vezes o incômodo é gerado por um desejo reprimido”.
Para Raimundo Pereira, do grupo gay Atobá, o beijo entre mulheres costuma chocar menos: “Duas mulheres podem andar de mãos dadas na rua que ninguém se importa. Com os homens é diferente”. Pensando bem, por quê?