O samba perdeu seu maior crítico social. O chamado “repórter da favela” retratava na música o cotidiano de sua comunidade de forma tão íntegra e original que o noticiário diário não conseguia se igualar – e nem a polícia chegar tão perto. Bezerra da Silva, que estava respirando com a ajuda de aparelhos, não suportou 80 dias de internação em UTI e sofreu uma parada cardíaca às 7h45 de ontem. O cantor estava internado no Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, desde 28 de outubro de 2004, com problemas pulmonares em decorrência de uma enfisema.
Em setembro do ano passado, Bezerra da Silva foi internado numa clínica privada do Rio, quando foram diagnosticadas pneumonia e enfisema pulmonar. O cantor teve alta, mas continuou fazendo tratamento em casa, valendo-se de uma estrutura montada por sua mulher, Regina. Com a piora de seu quadro, foi novamente internado. À época, ele foi levado para o hospital pelo Corpo de Bombeiros depois de se sentir mal em seu apartamento, no bairro de Copacabana.
O sambista foi intérprete de sucessos como Malandragem Dá um Tempo (Vô Apertar…), Defunto Cagüete, Malandro não Vacila, Seqüestraram Minha Sogra, Overdose de Cocada, e Malandro É Malandro e Mané É Mané. Bezerra era admirado por nomes da música pop como Marcelo D2, Barão Vermelho e O Rappa, que costumavam cantar suas músicas em shows e regravá-las em disco. Ele celebrizou o chamado “sambandido”, que mistura humor e protesto. Foi “detido para averiguações” por 21 vezes. No final de 2001, Bezerra da Silva se tornou evangélico e, segundo sua mulher, se preparava para gravar um disco com músicas religiosas ainda este ano.
Pernambucano José Bezerra da Silva nasceu em Recife (PE), em 1927. Aos nove anos já tocava zabumba e cantava coco. Aos 15 anos foi para o Rio de Janeiro, clandestinamente em um navio, e morou no Morro do Cantagalo. Trabalhou na construção civil como pintor de paredes. Em 1950, começou na música, influenciado por Jackson do Pandeiro. Tocou tamborim, surdo e instrumentos de percussão na Rádio Clube e em 1960 integrou a Orquestra da Copacabana Discos. Em 1969 gravou seu primeiro compacto pela Copacabana e seis anos depois seu primeiro LP.
Em 1995 gravou Moreira da Silva, Bezerra da Silva e Dicró: Os Três Malandros In Concert (Sony Music), paródia aos três tenores. Em 1998, o livro Bezerra da Silva – Produto do Morro, de Letícia Vianna, desvendava a vida desse poeta da malandragem. No final de 2001, o cantor se tornou evangélico e, segundo sua mulher, se preparava para gravar um disco com músicas religiosas ainda este ano.
Hip hop Inicialmente, Bezerra gravou cocos sem sucesso. Mas a partir da série Partido Alto Nota 10 (1977-1980) começou a encontrar seu público. O repertório de seus discos passou a ser abastecido por autores anônimos (alguns usando codinomes para preservar a clandestinidade) e Bezerra notabilizou-se pelo estilo “sambandido”, precursor mesmo do “gangsta rap” norte-americano. Antes do hip hop brasileiro, ele passou a transmitir do outro lado da trincheira da guerra civil não declarada. Aí vêm outros sucessos: Bicho Feroz, Meu Pirão Primeiro, Lugar Macabro, Piranha, Pai Véio 171, Candidato Caô Caô.
Bezerra era um verdadeiro campeão de vendas. Em 35 anos de carreira em disco lançou 27 álbuns – 25 solos, um especial e uma coletânea – e um compacto, que lhe renderam cerca de três milhões de cópias vendidas.
Filme Bezerra da Silva costumava dizer que seu sucesso tinha responsáveis: Tião Miranda, Moacyr Bombeiro, Embratel do Pandeiro, Adelzonilton ou 1.000 Tinho, nomes pouco conhecidos, mas talentosíssimos que escreviam as canções que ele gravava – todos amigos da favela. O curta-metragem Onde a Coruja Dorme, de Simplício Neto e Márcia Derraik, vencedor do prêmio de roteiro da RioFilme em 1998, conta a vida dos compositores das músicas de Bezerra da Silva.
“O Bezerra diz que o segredo do sucesso dele é esse time de compositores, que têm nele o único ponto de contato com a indústria fonográfica”, explica Simplício. Por isso o nome do curta: “ele vai buscar as músicas lá ‘onde a coruja dorme’” – no caso, favelas cariocas e as da Baixada Fluminense. Segundo Simplício, os autores dos “sambas de bandido” são trabalhadores, operários, comerciários, o que surpreende os que enxergam nas letras uma apologia ao crime e à malandragem.
O corpo do sambista foi velado no teatro João Caetano, no centro do Rio. O enterro será às 11h de hoje, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, No Rio.