São inúmeras as versões para a lenda do cavaleiro medieval Arthur – consagrado rei prematuramente, aos 15 anos, ao retirar a espada de Excalibur, fincada numa pedra. A cada instante, novas possibilidades sobre a trajetória do herói bretão são evidenciadas. No recente best-seller O Rei do Inverno, o historiador Bernard Cornwell tenta encontrar a verdadeira origem (científicamente) da figura mitológica. Dessa mesma forma, Antoine Fuqua, em seu filme Rei Arthur, se propõe a identificar uma verdade definitiva por trás da lenda.
O filme, que estréia hoje nos cinemas da cidade, levanta uma primeira polêmica nos créditos iniciais: uma pesquisa arqueológica do século 15 teria constatado que Arthur e os seus Cavaleiros da Távola Redonda enfrentaram uma guerra sangrenta no norte na Britânia com um numeroso exército de saxões. Isso no ano de 452 depois de Cristo. Não são apresentadas provas e a história é narrada de forma deslocada dentro do extenso período da Idade Média, com um argumento fraco e mínimas doses de emoção. É confusa, algumas vezes até nonsense.
Hollywood reconta a lenda de Arthur com toda a liberdade possível. No entanto, a nova história sobre o rei é fragilizada pela direção desnorteada e o elenco inexpressivo (além de atores não-famosos, atuações pouco convincentes). O diretor perde a mão – como já havia feito no péssimo Lágrimas do Sol, um thriller de guerra “sem pé nem cabeça” protagonizado por Bruce Willis – e não obteve êxito nem nas cenas de ação, mesmo com a assinatura de Jerry Bruckheimer (Piratas do Caribe e Armageddon) na produção.
Rei Arthur fica desinteressante aos poucos – não espere grandes cenas de luta medieval como aquelas constatadas em Gladiador, Tróia e, mais antigamente, no fabuloso Spartacus. Faltou mais armas para envolver o espectador. O longa-metragem, por fim, rebaixa o que era uma narrativa recheada de ação, drama, romance e mistérios sobrenaturais numa única jornada que ignora tudo que há de mágico e emocionante nas versões mais populares da tradição oral. Primeiramente, a lenda de Arthur, situada no final do século 12, é transportada para o século 5. Além disso, a bela Lady Guinevére – que, originalmente, coloca Arthur e o cavaleiro Lancelot numa guerra particular por seu amor – é subitamente colocada no posto de guerreira para lutar contra o povo saxônico na região norte do Império Romano. Para completar, nada se fala sobre o local sagrado de Avalon e a relação de Arthur com o feiticeiro Merlin, que o havia criado, é jogada na frente da telona sem qualquer esclarecimento.
Rei Arthur normalmente era colocado em segundo plano nos romances cinematográficos sobre Camelot (que regularmente tem Lancelot como a figura principal). Para os fãs da história, o filme decepciona. É completamente apático e descompromissado com os personagens da lenda e os propósitos do líder da Távola Redonda. Há muito que rei Arthur era merecedor de uma película à altura da pecha que carrega – de conquistador bravo e imortal. Agora, o espectador se depara com Rei Arthur. Será preciso esperar mais tempo, para se ver alguma obra notória sobre o mito.