Menu
Promoções

A infindável cegueira dos outros

Arquivo Geral

20/01/2006 0h00

Não existe uma maneira única de concluir a peça Molly Sweeney – Um Rastro de Luz, em cartaz no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil até 29 de janeiro (veja horários no roteiro). Cada espectador recebe de forma diferente a história de uma mulher cega há 41 anos que – diante dos interesses particulares de médico e de marido – se submete a uma cirurgia para voltar a enxergar. Entre muitas, a montagem propõe uma reflexão: até que ponto alguém sabe o que é melhor para o outro? No caso da antes feliz e adaptada Molly, por exemplo, o mundo da visão trouxe inadequação e dores instransponíveis, resultando em loucura e abandono.
Para contar a história, os atores Julia Lemmertz, Orã Figueiredo e Ednei Giovenazzi dão um show de interpretação. Durante todo o espetáculo, os personagens não interagem entre si, mas nem por isso o texto perde força. A intensidade da obra do irlandês Brian Friel – que se inspirou em uma história real – e a montagem do diretor Celso Nunes fazem com que os três contem a mesma história, cada um do ponto de vista de seu personagem, sem que a peça fique cansativa.
Já sabendo a sinopse da história, passa-se metade do espetáculo na expectativa da cirurgia de Molly. E divide-se com o marido, Frank, interpretado por Orã, a angústia desse milagroso fato. Na brilhante interpretação de Orã, o desempregado e desorientado Frank é também empolgado, ansioso, sonhador, engraçado e quase enfadonho.
Julia, por sua vez, parece se transformar em Molly, a ponto do personagem se sobrepujar à forte identidade da atriz: emociona a platéia sem despertar pena.
A propósito: o texto trata da cegueira sem ser piegas, ao contrário do que fez Glória Perez em América, com os personagens Jatobá e Flor. Friel vai além, usando a beleza da personagem principal para ressaltar o egoísmo dos que a cercam, o desrespeito pela vontade dela e as conseqüências disso.
Vale destacar, também, a linguagem e a montagem utilizadas na peça. O público recebe a história como Molly: não vê nenhuma cena, mas ouve os depoimentos e imagina os diálogos, os encontros e os acontecimentos. E, apesar de não interagirem entre si, os três atores estão o tempo inteiro no palco. Enquanto um dá seu depoimento, o movimento dos outros dois é muito importante: mostra a vitalidade e dá realismo aos personagens.
A espera pela cirurgia – empregada por Friel para expor os personagens, seus sentimentos e diferentes pontos-de-vista – culmina no aparente clímax da visão, seguido pelo anticlímax do fracasso de Molly em se adaptar e o seu subseqüente abandono. Trata-se, enfim, de uma história simples, contada com excelência por três grandes atores brasileiros.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado