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A grandeza do gesto simples

Arquivo Geral

01/12/2004 0h00

Bianchetti: “A grande marca de minha

obra é o sentimento,

é minha entrega”

Sarau, acrílico sobre tela de 1971, cores fortes e o ser humano em contemplação, características da obra do pintor gaúcho, radicado em Brasília desde 1962

Rubens Araújo

Amaturidade tende a sossegar um sujeito. Sentir-se reconfortado com as escolhas feitas, na vida pessoal e profissional, reflete-se no trato com o mundo. Com 55 anos de arte inseridos em 77 de vida, o artista plástico Glênio Bianchetti é o retrato desse sossego e bem-estar.

Em paz com sua arte e ainda ensimesmado com a beleza do cotidiano, Bianchetti é homenageado com um justo e refinado livro de arte, com a retrospectiva de sua carreira, ao mesmo tempo em que abre, a partir de amanhã até o dia 16 de janeiro de 2005, uma exposição com obras inéditas no Conjunto Cultural da Caixa.

O livro, com 185 obras representativas de todas as fases de Bianchetti, era uma velha dívida que as artes plásticas tinham com o pintor gaúcho, nascido em Bagé e radicado em Brasília desde 1962. Merecida homenagem que envaidece o artista, em lhe tirar o tino da sabedoria. “Vendo o livro, a gente começa a pensar em todo o caminho que a gente fez, onde se juntam realizações, frustrações e conquistas”, conta, em entrevista ao Jornal de Brasília.

testemunhoModesto, Bianchetti encara o livro como um testemunho do respeito que tem pela arte e pelo público, como o saldo positivo e sincero do trabalho de um operário da arte. E é assim que ele se considera: “Eu sou um trabalhador como outro qualquer, que precisa trabalhar todos os dias”, argumenta, com um brilho nos olhos.

Mas, ao contrário da maioria dos trabalhadores, Bianchetti quase não tira férias. “Às vezes fico dois ou três dias sem trabalhar, mas logo esse recesso me bate nos nervos e volto a pintar”. Mesmo quando tira férias na Bahia, o incorrigível artista aproveita o período para criar mais algumas obras. “O exercício de pintar é como viver. É algo que faz falta para mim. É como respirar. Só vou largar a pintura quando parar de respirar”, promete com um ar matreiro.

Porque pintar, confidencia o artista, é mais do que simplesmente a transpiração, é um ritual que beira o divino. “Sem querer fantasiar, considero o meu trabalho um processo, a elaboração de um sentimento que me aproxima mais de Deus. A gente fica mais próximo dele”. Essa proximidade de Deus aproxima Bianchetti do homem. É o ser humano, em sua tradução mais simples e poética, uma das maiores motivações da arte do pintor.

Fiel à escola do expressionismo figurativo, desde que aprendeu a técnica com José Morais – que foi discípulo e propagador das idéias e técnicas do grande Cândido Portinari –, Bianchetti busca a força da expressão humana, do gesto casual: “Eu gosto de pintar o que está à minha volta. Gosto do pequeno gesto, porque o considero algo muito grande. Se gostasse de grandes temas, estaria pintando hoje a cena da independência do Brasil”.

humanoPorque a outra escola que Bianchetti estudou foi a da generosidade e, dentro desta, a dimensão do humano sempre teve algo de político, não no sentido partidário, e sim da integridade. “Pintar o homem implica em uma sensibilidade política e poética. Acho que todo o artista deve ter numa posição política, como também acredito que essa posição não deva que, obrigatoriamente, interferir em seu trabalho”, coloca.

Rendeiras, pescadores, operários ou mulheres na janela, contemplando o vagar da vida, o cotidiano das pessoas comungam com a arte de Bianchetti, onde o colorido forte tem cadeira cativa. O mestre dos tons de verdes e azuis, como já foi chamado pela crítica. Artista completo, pai de seis filhos, um dos quais, Lourenço, herdou seu gosto pela pintura, ele faz questão de reeproduzir os simples gestos do homem com perfeccionismo e entrega apaixonada.

“Sou muito exigente com minha obra. Gosto quando as pessoas vêem um sentido em minha arte. E para isso, eu tenho que estar completamente dentro dela. Por isso, acho a grande marca de minha obra é o sentimento, é a minha entrega total no que faço”, explica Bianchetti. E é todo esse sentimento que virou livro e passa a reviver nas 31 telas, que a partir de sexta-feira se desvela, com muita maturidade, para quem quiser se contagiar.

serviço

Glênio Bianchetti – Lançamento de livro de arte e abertura de exposição. A partir de amanhã, até o dia 16 de janeiro de 2005, na Galeria Principal do Conjunto Cultural da Caixa (SBS, quadra 4). De terça-feira a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca.

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    01/12/2004 0h00

    Bianchetti: “A grande marca de minha

    obra é o sentimento,

    é minha entrega”

    Sarau, acrílico sobre tela de 1971, cores fortes e o ser humano em contemplação, características da obra do pintor gaúcho, radicado em Brasília desde 1962

    Rubens Araújo

    Amaturidade tende a sossegar um sujeito. Sentir-se reconfortado com as escolhas feitas, na vida pessoal e profissional, reflete-se no trato com o mundo. Com 55 anos de arte inseridos em 77 de vida, o artista plástico Glênio Bianchetti é o retrato desse sossego e bem-estar.

    Em paz com sua arte e ainda ensimesmado com a beleza do cotidiano, Bianchetti é homenageado com um justo e refinado livro de arte, com a retrospectiva de sua carreira, ao mesmo tempo em que abre, a partir de amanhã até o dia 16 de janeiro de 2005, uma exposição com obras inéditas no Conjunto Cultural da Caixa.

    O livro, com 185 obras representativas de todas as fases de Bianchetti, era uma velha dívida que as artes plásticas tinham com o pintor gaúcho, nascido em Bagé e radicado em Brasília desde 1962. Merecida homenagem que envaidece o artista, em lhe tirar o tino da sabedoria. “Vendo o livro, a gente começa a pensar em todo o caminho que a gente fez, onde se juntam realizações, frustrações e conquistas”, conta, em entrevista ao Jornal de Brasília.

    testemunhoModesto, Bianchetti encara o livro como um testemunho do respeito que tem pela arte e pelo público, como o saldo positivo e sincero do trabalho de um operário da arte. E é assim que ele se considera: “Eu sou um trabalhador como outro qualquer, que precisa trabalhar todos os dias”, argumenta, com um brilho nos olhos.

    Mas, ao contrário da maioria dos trabalhadores, Bianchetti quase não tira férias. “Às vezes fico dois ou três dias sem trabalhar, mas logo esse recesso me bate nos nervos e volto a pintar”. Mesmo quando tira férias na Bahia, o incorrigível artista aproveita o período para criar mais algumas obras. “O exercício de pintar é como viver. É algo que faz falta para mim. É como respirar. Só vou largar a pintura quando parar de respirar”, promete com um ar matreiro.

    Porque pintar, confidencia o artista, é mais do que simplesmente a transpiração, é um ritual que beira o divino. “Sem querer fantasiar, considero o meu trabalho um processo, a elaboração de um sentimento que me aproxima mais de Deus. A gente fica mais próximo dele”. Essa proximidade de Deus aproxima Bianchetti do homem. É o ser humano, em sua tradução mais simples e poética, uma das maiores motivações da arte do pintor.

    Fiel à escola do expressionismo figurativo, desde que aprendeu a técnica com José Morais – que foi discípulo e propagador das idéias e técnicas do grande Cândido Portinari –, Bianchetti busca a força da expressão humana, do gesto casual: “Eu gosto de pintar o que está à minha volta. Gosto do pequeno gesto, porque o considero algo muito grande. Se gostasse de grandes temas, estaria pintando hoje a cena da independência do Brasil”.

    humanoPorque a outra escola que Bianchetti estudou foi a da generosidade e, dentro desta, a dimensão do humano sempre teve algo de político, não no sentido partidário, e sim da integridade. “Pintar o homem implica em uma sensibilidade política e poética. Acho que todo o artista deve ter numa posição política, como também acredito que essa posição não deva que, obrigatoriamente, interferir em seu trabalho”, coloca.

    Rendeiras, pescadores, operários ou mulheres na janela, contemplando o vagar da vida, o cotidiano das pessoas comungam com a arte de Bianchetti, onde o colorido forte tem cadeira cativa. O mestre dos tons de verdes e azuis, como já foi chamado pela crítica. Artista completo, pai de seis filhos, um dos quais, Lourenço, herdou seu gosto pela pintura, ele faz questão de reeproduzir os simples gestos do homem com perfeccionismo e entrega apaixonada.

    “Sou muito exigente com minha obra. Gosto quando as pessoas vêem um sentido em minha arte. E para isso, eu tenho que estar completamente dentro dela. Por isso, acho a grande marca de minha obra é o sentimento, é a minha entrega total no que faço”, explica Bianchetti. E é todo esse sentimento que virou livro e passa a reviver nas 31 telas, que a partir de sexta-feira se desvela, com muita maturidade, para quem quiser se contagiar.

    serviço

    Glênio Bianchetti – Lançamento de livro de arte e abertura de exposição. A partir de amanhã, até o dia 16 de janeiro de 2005, na Galeria Principal do Conjunto Cultural da Caixa (SBS, quadra 4). De terça-feira a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca.

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