Menu
Promoções

A estética do frio de Vitor Ramil

Arquivo Geral

28/12/2004 0h00

Quando desenvolveu a estética do frio, o gaúcho Vitor Ramil estava preparando o terreno para criar uma música com um pé nos pampas e outro no aldeia global. Há naquela filosofia um certo pesar, uma tristeza típica de quem, nas querências sulistas, açodado pelo tempo gelado das paragens e emparedado por paisagens isoladas, tende ao ensimesmamento. Esse sentimento tão universal trespassa as músicas de Longes (Satolep Music), o sétimo e belo álbum do artista, que acaba de chegar ao mercado.

O encarte do CD, em uma de suas páginas já antecipa, o clima contemplativo. “Longes: objetos representados em tela como distantes, impressão vaga, grandes distâncias de tempos e espaços”. A lírica melancólica da estética do frio parece se encaixar perfeitamente neste conceito. As tessituras dessa melancolia traduzida em música são quase palpáveis. Arranjos marcados por guitarras e uma linha de baixo lamurienta, a cargo do argentino, Pedro Aznar – também produtor do disco – e, principalmente, por violões arpejados pelo próprio Ramil, e pelo delicado piano de Gabriel Victora, dão o tom introspectivo do trabalho.

intimistaA instrospecção e os questionamentos acerca desse distanciamento de coisas e pessoas que às vezes assola o indivíduo estão fortemente presentes em músicas como Noturno e Longe de Você, esta na qual a linda letra, intimista e amargurada, atesta uma separação: “Tô vivendo em outra dimensão/Longe de você/Habitando o fundo de um vulcão que eu domestiquei”. Vitor Ramil chega a pedir emprestado um prelúdio BWV de Bach para destilar sua melancolia numa das mais belas músicas do disco, Perdão.

Mas, o autor gaúho se permite alguns momentos mais ensolarados onde se percebem os ecos de Ramilonga e Tambong, seus trabalhos anteriores, obras também um tanto conceituais, mas de sonoridade mais diversa. É o caso de Noa Noa, onde se inspira em Paul Gauguin para sugerir que todos serão felizes, pelo menos uma vez na vida, e De Banda, que faz uma referência, na letra, à clássica A Banda, de Chico Buarque. Mas, como acontece em toda a sua discografia, ele não esqueceu também as raízes. Querência, com um instigante arranjo de cordas, é uma milonga etérea e estilizada cheia de saudosismo e daquelas expressões próprias dos pampas.

Longes, gravado em Buenos Aires, cidade com a qual ele está cada vez mais próximo, é provavelmente o trabalho mais pessoal, literário e emotivo de Vitor Ramil. Sua melancolia carregada de uma poesia cortante pesa uma tonelada, mas nem de longe tira o brilho de uma obra que representa, com mérito, a nova e provocativa música popular brasileira. Uma música feita de idéias, grandes melodias e que se assume nacional, sem ter medo de beber nas fontes e sentimentos regionais. Ramil fez um CD consistente, maduro e, com certeza, um dos mais belos e instigantes álbuns do ano de 2004.

    Você também pode gostar

    A estética do frio de Vitor Ramil

    Arquivo Geral

    28/12/2004 0h00

    Quando desenvolveu a estética do frio, o gaúcho Vitor Ramil estava preparando o terreno para criar uma música com um pé nos pampas e outro no aldeia global. Há naquela filosofia um certo pesar, uma tristeza típica de quem, nas querências sulistas, açodado pelo tempo gelado das paragens e emparedado por paisagens isoladas, tende ao ensimesmamento. Esse sentimento tão universal trespassa as músicas de Longes (Satolep Music), o sétimo e belo álbum do artista, que acaba de chegar ao mercado.

    O encarte do CD, em uma de suas páginas já antecipa, o clima contemplativo. “Longes: objetos representados em tela como distantes, impressão vaga, grandes distâncias de tempos e espaços”. A lírica melancólica da estética do frio parece se encaixar perfeitamente neste conceito. As tessituras dessa melancolia traduzida em música são quase palpáveis. Arranjos marcados por guitarras e uma linha de baixo lamurienta, a cargo do argentino, Pedro Aznar – também produtor do disco – e, principalmente, por violões arpejados pelo próprio Ramil, e pelo delicado piano de Gabriel Victora, dão o tom introspectivo do trabalho.

    intimistaA instrospecção e os questionamentos acerca desse distanciamento de coisas e pessoas que às vezes assola o indivíduo estão fortemente presentes em músicas como Noturno e Longe de Você, esta na qual a linda letra, intimista e amargurada, atesta uma separação: “Tô vivendo em outra dimensão/Longe de você/Habitando o fundo de um vulcão que eu domestiquei”. Vitor Ramil chega a pedir emprestado um prelúdio BWV de Bach para destilar sua melancolia numa das mais belas músicas do disco, Perdão.

    Mas, o autor gaúho se permite alguns momentos mais ensolarados onde se percebem os ecos de Ramilonga e Tambong, seus trabalhos anteriores, obras também um tanto conceituais, mas de sonoridade mais diversa. É o caso de Noa Noa, onde se inspira em Paul Gauguin para sugerir que todos serão felizes, pelo menos uma vez na vida, e De Banda, que faz uma referência, na letra, à clássica A Banda, de Chico Buarque. Mas, como acontece em toda a sua discografia, ele não esqueceu também as raízes. Querência, com um instigante arranjo de cordas, é uma milonga etérea e estilizada cheia de saudosismo e daquelas expressões próprias dos pampas.

    Longes, gravado em Buenos Aires, cidade com a qual ele está cada vez mais próximo, é provavelmente o trabalho mais pessoal, literário e emotivo de Vitor Ramil. Sua melancolia carregada de uma poesia cortante pesa uma tonelada, mas nem de longe tira o brilho de uma obra que representa, com mérito, a nova e provocativa música popular brasileira. Uma música feita de idéias, grandes melodias e que se assume nacional, sem ter medo de beber nas fontes e sentimentos regionais. Ramil fez um CD consistente, maduro e, com certeza, um dos mais belos e instigantes álbuns do ano de 2004.

      Você também pode gostar

      Assine nossa newsletter e
      mantenha-se bem informado