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Saúde

Sem acompanhamento, perda de peso com canetas traz riscos físicos e psicológicos, dizem entidades europeias

Essa é a principal mensagem de um consenso publicado na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology em julho

Redação Jornal de Brasília

22/07/2026 6h27

ozempic

Foto: AFP

VITOR HUGO BATISTA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

As canetas emagrecedoras mudaram o tratamento da obesidade nos últimos anos. Mas o emagrecimento rápido promovido por esses remédios pode trazer não apenas riscos nutricionais e musculares, mas também psicológicos se o paciente se preocupar apenas com a perda de peso e não receber um acompanhamento adequado.

Essa é a principal mensagem de um consenso publicado na revista científica The Lancet Diabetes & Endocrinology em julho, elaborado por três entidades europeias dedicadas à obesidade e nutrição —EASO (Associação Europeia para o Estudo da Obesidade), EFAD (Federação Europeia dos Nutricionistas) e ECPO (Coalizão Europeia de Pessoas com Obesidade).

Os especialistas revisaram toda a literatura disponível até 2025 e elaboraram recomendações práticas, pela primeira vez, para médicos, nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas que acompanham pacientes em uso dos emagrecedores à base de incretinas —classe que inclui os agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic e Wegovy), e os agonistas duplos de GLP-1 e GIP, como a tirzepatida (Mounjaro).

Até recentemente, muita atenção era dada apenas ao peso perdido. Agora o consenso diz que o importante é acompanhar como esse peso está sendo perdido.

“O documento veio para ressaltar a importância do tratamento multidisciplinar. Muitas pessoas achavam que bastava usar essas drogas e estava tudo resolvido. Mas não adianta perder peso de qualquer jeito. É importante que essa perda seja com qualidade, para garantir uma boa saúde”, diz o endocrinologista Fabio Moura, diretor da Sbem (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).

Na avaliação do nutrólogo Guilherme Giorelli, professor e coordenador da pós-graduação em Nutrologia do Hospital Israelita Albert Einstein, a publicação responde a uma realidade relativamente nova na prática clínica.

“Nunca tivemos medicamentos tão potentes para tratar obesidade. De uma hora para outra o paciente que começa a tomar medicação passa a ficar mais saciado e com menos fome. Isso vai, sem sombra de dúvida, levar ele a comer menos. E quem come menos, precisa comer melhor. É necessário muito mais atenção”, diz.

Com a redução do apetite, os pacientes tendem a consumir menos proteínas, vitaminas, minerais e fibras. Como consequência, parte do emagrecimento pode levar a perda de massa muscular, aumentar o risco de desnutrição e comprometer a capacidade funcional, especialmente entre idosos.

Durante a fase de emagrecimento, o documento recomenda a ingestão de pelo menos 60 gramas de proteína por dia, distribuídas ao longo das refeições. Quando a alimentação não for suficiente para atingir essa meta, suplementos podem ser considerados, como whey e shakes.

Outra recomendação é priorizar alimentos ricos em fibras, pelo menos 25 gramas por dia, o que ajuda a reduzir a constipação, um dos efeitos adversos mais relatados.

“Uma ingestão proteica adequada minimiza ou até impede a perda de massa magra. Já uma ingestão adequada de fibras mantém o intestino funcionando melhor”, diz Moura.

Além disso, é recomendado o consumo de 2 a 2,5 litros de água diariamente, já que muitos perdem sede junto com apetite, o que pode levar a desidratação.

O consenso também chama atenção para a possibilidade de deficiências nutricionais. Pessoas com obesidade frequentemente já apresentam carências de vitaminas e minerais antes mesmo de iniciar o tratamento, e a redução importante da ingestão alimentar pode agravar esse quadro.

Os autores destacam a necessidade de monitorar nutrientes como ferro, vitamina B12, vitamina D, ácido fólico e zinco em pacientes considerados de maior risco. Em situações nas quais a ingestão calórica permaneça abaixo de 1.200 calorias por dia, a suplementação com multivitamínicos pode ser considerada.

Os efeitos adversos, como náuseas, vômitos, refluxo, diarreia e prisão de ventre, não podem ser ignorados. Em vez de recomendar a interrupção imediata do tratamento por essa razão, o consenso orienta que esses sintomas sejam manejados por meio de aumento mais lento da dose, ajustes temporários na medicação e adaptações na alimentação, sempre que possível.

Saúde mental e relação com a comida

Além dos aspectos nutricionais, o documento dedica um capítulo inteiro à saúde mental. Os autores afirmam que esses medicamentos modificam profundamente a relação das pessoas com a comida e recomendam que profissionais investiguem sintomas de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e possíveis mudanças na forma como os pacientes buscam prazer e recompensa.

Segundo o documento, alguns pacientes descrevem desaparecimento da “fome emocional”, redução do chamado “ruído alimentar” e menor compulsão. Mas isso pode gerar efeitos inesperados, como perda de identidade, dificuldade para lidar com emoções e sensação de vazio, já que a comida era um mecanismo importante da rotina.

“A comida não é apenas fonte de energia. Ela também ativa circuitos de prazer e está profundamente ligada à vida social e familiar. Quando a pessoa deixa de usar a comida dessa forma, outras questões emocionais podem aparecer. Isso não significa que seja um efeito frequente, mas precisamos preparar o paciente para essa possibilidade”, diz Giorelli.

Ele afirma que o objetivo do tratamento deve ser mais amplo do que atingir determinado peso na balança.

“Saúde não é apenas ter o peso ideal. É bem-estar físico, mental e social. A medicação ajuda muito, mas o paciente precisa entender que ela faz parte de um processo maior de mudança de hábitos e de construção de uma vida mais equilibrada.”

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