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Lubrificantes de maconha prometem mais prazer, mas sem comprovação científica

Antes de usar, Thaís pesquisou algumas opções de lubrificantes e optou por um que dizia ser 100% natural

Por FolhaPress 28/05/2022 11h10

Samuel Fernandes
São Paulo, SP

Vibradores para sucção do clitóris, dildos de variados tamanhos e bullets discretos. No sexo, uma infinidade de acessórios têm o único objetivo de aumentar o prazer. Até mesmo um lubrificante feito à base de maconha.

A cannabis vem sendo pesquisada para uso medicinais há alguns anos, como para o tratamento da epilepsia e até mesmo da Covid-19. Uma utilização que vem ganhando espaço é no sexo, mas ainda sem contar com evidências científicas de eficácia e segurança nem com regulamentação para esse fim no Brasil.

Nos Estados Unidos, por exemplo, existe a Foria, empresa que já conta com diversos produtos derivados da cannabis em seu portfólio. A cliente pode comprar lubrificantes, óleos de massagens e até supositórios.

No Brasil, a maconha ainda é proibida para uso recreativo. As brasileiras, no entanto, têm algumas opções. Uma delas é a Xapa Xana, um lubrificante à base da planta que procura facilitar o orgasmo e pode ser comprado pela internet.

Fundadora da iniciativa, Débora Melo, 45, afirma que os padrões impostos pela sociedade contribuem para que mulheres tenham recorrentes problemas com sua sexualidade. “Elas acabam se esquecendo de si mesmas, de buscarem o prazer próprio.”

De fato, uma vida sexual prazerosa depende de vários fatores, explica Silvana Chedid, ginecologista do Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. A libido, por exemplo, é influenciada por hormônios como estrogênio e testosterona, e o ciclo menstrual também tem seu papel no desejo sexual, já que “depois da ovulação ocorre a produção da progesterona, que tem um efeito negativo na libido”.

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A MAGIA DO CLITÓRIS (E DA MACONHA)

Além do desejo sexual, o orgasmo é essencial para um sexo prazeroso. No caso das mulheres, atingir o ápice do prazer envolve principalmente a estimulação do clitóris. Chedid afirma que é muito difícil uma mulher atingir o orgasmo somente por meio da penetração vaginal.

É por isso que existe a visão equivocada de que o orgasmo em mulheres demora mais, já que a ereção do pênis pode ser mais rápida. Mas Chedid ressalta que isso não é uma regra.

“Tem mulheres que conseguem atingir o orgasmo de maneira mais rápida e há homens que têm maior dificuldade em manter uma ereção e por isso acabam demorando para ter o orgasmo”, afirma.

Por sua importância para o sexo nas mulheres, é no clitóris que normalmente são aplicados lubrificantes à base de cannabis, como é o casa da Xapa Xana. Antes de inventá-lo, no entanto, Débora não estava muito animada com a ideia.

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Tudo começou quando ela conheceu um lubrificante caseiro de maconha em São Paulo. Mas a atenção não foi tanta. Débora trabalhava com arte e pensou que a ideia de enveredar para a produção de um lubrificante sexual não fazia sentido.

Foi só quando ela se mudou para o Uruguai, onde o uso recreativo da planta já é liberado, que as coisas mudaram. Sua nova estadia coincidiu com a época de colheita e, na casa de uma pessoa que ela visitou, tinha um pé muito grande de maconha.

A partir de então, Débora estudou os produtos comercializados pela Foria, uma inspiração para ela, e entendeu com mais detalhes como a cannabis podia ser usada no seu lubrificante.

O produto surgiu basicamente com tentativas que ela fazia com amigas: elas utilizavam e passavam feedbacks. Ou seja, o produto não passou por testes científicos que comprovem sua segurança e eficácia.

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Entre idas e vindas, o lubrificante final foi preparado e Débora se preocupou em fazer um conceito visual. Com cores vibrantes e ilustrações que evocam a sexualidade feminina, a Xapa Xana tem uma identidade visual, como em fanzines que acompanham cada lubrificante.

Com as vendas aumentando, histórias de mulheres que tiveram benefícios chegaram. Um exemplo foi de uma jovem norte-americana que tinha 25 anos, mas nunca tinha tido um orgasmo na vida. Débora a conheceu durante uma viagem à Califórnia e deu para ela um exemplar da Xapa Xana.

“Ela usou com uma pessoa […] e teve o primeiro orgasmo dela. Ela ficou muito deslumbrada”, afirma.

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Outros relatos que marcaram a fundadora do lubrificante nesses anos foram de mulheres mais velhas que utilizaram o produto na menopausa —o momento pode ser marcado por uma diminuição da libido. “Essas mulheres vêm me agradecer”, completa Débora.

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Outro caso foi o de Thaís Carol Sfeir, 30. Foi por curiosidade e por ser a favor da descriminalização da maconha que ela se interessou em testar um lubrificante composto pela planta. Segundo ela, o assunto também estava em alta em meados de 2019, época que experimentou.

Antes de usar, Thaís pesquisou algumas opções de lubrificantes e optou por um que dizia ser 100% natural. “Eu não tive medo por ser uma coisa natural. Eu fui bem segura disso”, afirma.

Esse produto não é o mesmo da Xapa Xana e foi comprado por ela pelo Instagram. Thaís não quis revelar a marca uma vez que o uso recreativo ainda não é regularizado no Brasil.

No fim, a experiência para Thaís foi positiva. Segundo ela, a sensibilidade ao toque aumentou com o produto. Na penetração, ela também sentiu uma maior sensibilidade. “Você consegue chegar ao orgasmo muito mais rápido”, diz.

MAS SERÁ MESMO?

Embora existam relatos de mulheres que tiveram melhoras em suas vidas sexuais, o uso da cannabis para fins sexuais é incerto.

Um dos compostos da maconha mais pesquisados é o CBD (canabidiol). Chedid, ginecologista do Sírio Libanês, explica que os estudos feitos da substância para uso sexual são muito recentes e por isso ainda não existem certezas da eficácia e segurança. A ginecologista, mesmo assim, tem uma visão otimista.

“Eu vejo de maneira muito positiva esses trabalhos e acredito que com mais experiências vamos conseguir mostrar o benefício do CBD para disfunções sexuais”, afirma.

Mesmo assim, ainda é importante ter ressalvas. Chedid explica que é sempre necessário ter acompanhamento médico e também não utilizar produtos sem uma origem confiável.

“O segredo da medicina canábica é que a dose de CBD seja individualizada para cada paciente e só o acompanhamento médico pode chegar a isso”, diz. No caso dos lubrificantes vendidos ilegalmente no Brasil, a dose é a mesma para todos.

Além disso, recorrer a produtos para ter uma vida sexual melhor, sejam eles derivados de qualquer substância, nem sempre é o caminho. O sexo é um ato que depende de diversos fatores.

“Tem mulheres que se estão chateadas com o parceiro, podem se fechar, não havendo nada de errado do ponto de vista clínico. Elas podem ficar menos receptivas ao ato sexual e terem mais dificuldade de se excitarem”, exemplifica Chedid.

Nesses casos, talvez você só precise de um tempo. Ou talvez fazer a outra parte da sua relação se dedicar mais durante o sexo. No fim, está tudo bem —e, quem sabe, logo logo o orgasmo chegará.








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