Quase metade dos médicos que trabalham em unidades de terapia intensiva (UTIs) no Brasil apresenta nível elevado de esgotamento mental e emocional, segundo o Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM).
O estudo ouviu 2.338 profissionais em 26 estados e no Distrito Federal. Os dados indicam que 48,5% dos entrevistados relataram alto nível de desgaste emocional, enquanto 31,2% apontaram esgotamento moderado. Apenas 20,3% disseram ter baixos níveis de esgotamento emocional.
A pesquisa também mostra que 46,4% dos profissionais relatam baixo grau de satisfação com suas atividades. Quando considerados os casos de satisfação moderada, 84,5% da força de trabalho médica não está totalmente satisfeita com o exercício da medicina nas UTIs.
Outro ponto destacado pelo levantamento é a despersonalização: 45,6% dos intensivistas afirmam ter algum grau desse fenômeno, caracterizado pelo distanciamento emocional e por atitudes frias, apáticas ou cínicas em relação a pacientes e colegas. Entre os entrevistados, 29,6% relataram nível moderado de despersonalização e 16% indicaram níveis elevados.
Em nota, a Amib avaliou que os achados sugerem um quadro de grande vulnerabilidade dos médicos intensivistas à síndrome de burnout, marcada por exaustão emocional, distanciamento afetivo e sensação de baixa realização pessoal. A entidade defende que a saúde mental desses profissionais seja tratada como prioridade em políticas públicas, com mobilização de gestores, instituições e autoridades de saúde.
Em coletiva de imprensa, o diretor de Comunicação do CFM, Estevam Rivello, destacou que a pressão sobre os médicos intensivistas tem impactos diferentes nos sistemas público e privado. Segundo ele, no sistema suplementar o profissional dispõe de mais estrutura e recursos terapêuticos, enquanto no serviço público enfrenta maior estresse, remuneração distinta e mais vínculos empregatícios.
A Amib avalia que o quadro pode estar relacionado à carga horária elevada, à exposição constante a situações críticas, à precariedade da infraestrutura e à demanda crescente por cuidados diante de uma rede de cobertura limitada. O estudo também cita o confronto diário com dor, sofrimento e morte, além da necessidade de decisões ágeis e precisas.
Os dados mostram ainda que, quanto maior o grau de especialização do médico que trabalha no ambiente intensivo, menor o nível de esgotamento mental, menor a referência a comportamentos de distanciamento afetivo e maior a realização pessoal com a profissão. Já entre médicos generalistas que atuam em UTIs, os percentuais de alto esgotamento emocional, alto grau de despersonalização e baixo nível de satisfação com o próprio desempenho foram de 52,3%, 20,1% e 50,7%, respectivamente. Entre médicos intensivistas, os índices foram de 44,5%, 12,7% e 39,8%.