Cerca de 30 mil crianças nascem por ano no Brasil com algum tipo de malformação no coração, segundo o Ministério da Saúde. Neste Dia Nacional de Conscientização sobre a Cardiopatia Congênita, especialistas reforçam que o diagnóstico precoce é decisivo para aumentar as chances de sobrevivência e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
A coordenadora da Divisão de Cardiologia da Criança e do Adolescente do Instituto Nacional de Cardiologia (INC), Renata Mattos, afirma que o acesso ao diagnóstico vem aumentando no país, embora ainda haja diferenças regionais. “Aqui, na Região Sudeste, a gente tem mais acesso do que na Região Norte, por exemplo. Mas, de forma geral, a gente vê que o diagnóstico está sendo feito e o acesso ao tratamento está cada vez melhor”, disse à Agência Brasil.
Segundo a cardiologista pediátrica, a cardiopatia congênita reúne diferentes doenças e graus de gravidade. Quando a alteração é identificada ainda durante a gestação, o principal objetivo é planejar o parto e garantir que o bebê nasça em um local com estrutura adequada, como UTI, caso precise de cirurgia ou cateterismo logo após o nascimento. Em alguns casos, o problema pode ser corrigido com cirurgia fetal, mas essa indicação é rara.
Se o diagnóstico não ocorre no nascimento, pais e responsáveis devem ficar atentos a sinais como dificuldade para ganhar peso, cansaço para mamar, respiração acelerada, lábios arroxeados, dor no peito e palpitações em crianças maiores. Em casos graves, a falta de tratamento nos primeiros dias de vida pode colocar a sobrevivência em risco.
Renata Mattos destaca que, com o diagnóstico correto e o acompanhamento especializado, muitos pacientes conseguem ter uma vida normal. Ela lembra ainda que crianças e adolescentes com cardiopatia congênita hoje podem crescer, trabalhar e praticar exercícios, sempre com monitoramento médico.
A reportagem também mostra histórias de quem convive com a condição desde cedo. Nathan Senna Alves foi diagnosticado ainda ao nascer e acompanhou todo o tratamento na Pró Criança Cardíaca, instituição que atende pacientes com esse problema há 30 anos. Ele passou por três cirurgias, aos 2, 6 e 18 anos, e hoje tem 30 anos, é casado, tem um filho de 12 anos e não apresentou complicações após a última operação. Atualmente, faz tratamento na Policlínica Piquet Carneiro, vinculada à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
A fundadora da Pró Criança Cardíaca, Rosa Célia, afirma que histórias como a de Nathan mostram a importância do acesso à saúde. Segundo ela, quando há diagnóstico precoce e tratamento adequado, a cardiopatia congênita não precisa definir os limites de uma vida. Ao longo de três décadas, a instituição atendeu mais de 16 mil crianças e adolescentes e realizou 130 mil atendimentos.
No SUS, o acompanhamento começa no pré-natal e pode incluir ecocardiograma fetal, exame recomendado pelo Ministério da Saúde entre a 24ª e a 28ª semana de gestação, além do Teste do Coraçãozinho, triagem obrigatória feita na maternidade entre 24 e 48 horas de vida. Quando há diagnóstico, os pacientes são encaminhados para a rede especializada, onde podem receber tratamento clínico ou cirúrgico integralmente custeado pelo sistema público.