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Saúde

Curativo líquido desenvolvido na Unicamp pode reduzir pela metade tempo de cicatrização

Material dispensa o uso de gazes e ataduras e reduziu em aproximadamente 50% o tempo de cicatrização em testes pré-clínicos, segundo os pesquisadores

Redação Jornal de Brasília

15/10/2026 18h12

curativo líquido desenvolvido na unicamp

Foto: Inova Unicamp/ Divulgação/ Igor Alisson

LUIZA LOPES
FOLHAPRESS

Pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) desenvolveram um curativo líquido que forma uma película protetora sobre feridas em até 45 segundos.

O material dispensa o uso de gazes e ataduras e reduziu em aproximadamente 50% o tempo de cicatrização em testes pré-clínicos, segundo os pesquisadores.

A tecnologia foi desenvolvida na Faculdade de Engenharia Química e licenciada para a Dermbio Biotech, spin-off acadêmica da Unicamp.

O produto ainda não está disponível comercialmente e precisa avançar nos estudos de segurança e eficácia em seres humanos, além de cumprir as exigências regulatórias da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

A proposta é proteger a lesão sem exigir a troca periódica de curativos convencionais, que podem aderir ao tecido em regeneração e causar dor ou prejudicar a cicatrização durante a retirada.

O produto é aplicado diretamente sobre a ferida, como um spray. Depois da aplicação, o material forma uma membrana transparente e flexível que protege a região e serve de suporte para o crescimento de células envolvidas na regeneração dos tecidos.

A tecnologia utiliza um polímero chamado PLA (poliácido lático), produzido a partir do ácido lático.
Embora o material já seja empregado em aplicações médicas, como fios de sutura, pinos e parafusos, sua obtenção para esse setor depende de “importações com preços exorbitantes”, diz Ana Flávia Pattaro, doutora em engenharia química pela Unicamp e uma das responsáveis pelo desenvolvimento.

O objetivo dos pesquisadores era desenvolver no Brasil um processo de produção do polímero.

No entanto, eles identificaram um problema adicional para utilização como curativo: os solventes tradicionalmente empregados no processamento do material são tóxicos e impedem sua aplicação direta sobre a pele lesionada.

A equipe desenvolveu então uma formulação com solventes que, segundo eles, não são tóxicos e permitem transformar o polímero em um líquido adequado para a aplicação. O trabalho deu origem a uma segunda patente, relacionada à solução usada no curativo.

A membrana formada apresenta uma estrutura tridimensional de fibras. De acordo com Pattaro, as células responsáveis pela produção de tecido novo conseguem aderir a essa estrutura, que é gradualmente absorvida pelo organismo durante a cicatrização.

“Deixar o corpo fazer melhor o que ele já faz” é a maneira como Rubens Maciel Filho, professor da Unicamp e coordenador da pesquisa, resume o princípio da tecnologia. Em vez de substituir o processo natural de recuperação, o material procura oferecer condições para que ele ocorra de forma mais rápida.

A película é resistente à água corrente, embora possa ser removida com fricção e água e sabão. Sua flexibilidade também permite acompanhar os movimentos do corpo, uma vantagem para feridas em regiões como joelhos, cotovelos e dedos.

Nos curativos tradicionais, a movimentação pode provocar dobras, atrito ou descolamento. Além disso, a retirada da cobertura pode arrancar parte do tecido que está se formando.

Como o novo material não precisa ser trocado, os pesquisadores esperam reduzir esse tipo de trauma e diminuir a manipulação da ferida.

A ausência de trocas também pode reduzir a produção de resíduos biológicos e algumas oportunidades de contaminação durante o manuseio. Esses benefícios, contudo, não significam que o produto dispense os demais cuidados necessários no tratamento de feridas.

Nos ensaios pré-clínicos realizados até agora, feitos em animais, os pesquisadores observaram uma redução de aproximadamente 50% no tempo de cicatrização em comparação com curativos tradicionais.

Segundo Pattaro, os testes também indicaram uma recuperação adequada do tecido, não apenas uma diminuição no tempo necessário para fechar a lesão.

Os resultados ainda não foram publicados em revista científica. De acordo com a equipe, o estudo foi submetido a uma publicação internacional e aguarda avaliação.

Os pesquisadores estão concluindo uma segunda etapa de testes pré-clínicos. A expectativa é avançar nesse trabalho até o fim de 2026 e, depois, iniciar os procedimentos necessários para os estudos clínicos, com humanos.

A pesquisadora afirma que o polímero já é conhecido por suas aplicações médicas, mas que “isso não substitui a necessidade de avaliar o curativo específico, incluindo sua formulação, seu modo de aplicação e seu desempenho no tratamento de diferentes tipos de lesão”.

A equipe vê potencial para utilizar o curativo em diferentes tipos de ferida, incluindo lesões por pressão, conhecidas como escaras, que podem atingir pessoas acamadas ou com mobilidade reduzida.

Feridas associadas ao pé diabético, queimaduras e lesões decorrentes de acidentes também estão entre as possibilidades. A aplicação em cada situação depende da comprovação de segurança e eficácia.

Além disso, a tecnologia pode ter aplicação veterinária, já que a película aderente e resistente à água poderia dificultar que animais removam a proteção ou prejudiquem a ferida ao lambê-la.

Próximos passos

A Dermbio Biotech trabalha para transformar a pesquisa em um produto comercial. Além da formulação, a equipe desenvolveu um aplicador próprio e afirma ter estruturado no Brasil as diferentes etapas de produção, com o objetivo de manter custos competitivos.

“Nosso objetivo é transformar ciência em tecnologia, tecnologia em produto, produto em bem-estar e ganhos econômicos para o país”, diz Maciel Filho.

Os pesquisadores também estudam uma versão em aerossol para venda em farmácias. Segundo Pattaro, essa apresentação poderá ter desempenho inferior, mas ainda poderá oferecer benefícios no tratamento de feridas.

O desenvolvimento recebeu apoio financeiro da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e suporte para o licenciamento da Agência de Inovação Inova Unicamp.

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