Uma paciente de 74 anos foi submetida ao primeiro transplante de quadril com enxerto ósseo estrutural realizado no Distrito Federal. O procedimento, de alta complexidade, reconstruiu praticamente toda a região direita da bacia após uma fratura ao redor de uma prótese de quadril evoluir sem diagnóstico e provocar a perda de grande parte do tecido ósseo.
A cirurgia durou cerca de oito horas e foi realizada na MEO – Medicina Esportiva e Ortopedia. O procedimento foi conduzido pelo ortopedista Abner Alberti, com participação dos cirurgiões Diogo Souto, Anderson Freitas e Eduardo Duarte, além da equipe do médico Rafael Prinz, responsável pela articulação com um banco de tecidos do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro.
O caso exigiu a utilização de um grande enxerto ósseo estrutural, proveniente de doador, para reconstruir a área comprometida e criar uma nova estrutura capaz de receber uma prótese de quadril.
Fratura

A paciente havia recebido uma prótese de quadril oito anos antes e mantinha uma rotina ativa. Após sofrer um tropeço, procurou atendimento médico e realizou exames de imagem. Na ocasião, a lesão foi interpretada como muscular.
A fratura ao redor da prótese era discreta e não foi identificada inicialmente. Com isso, a paciente continuou apoiando peso sobre a perna e realizou fisioterapia e atividades físicas. Ao longo dos meses, a prótese perdeu estabilidade, deslocou-se progressivamente para dentro da pelve e provocou desgaste do osso da bacia.
Quando o problema foi identificado, a estrutura óssea havia sido severamente comprometida. De acordo com Abner Alberti, a prótese estava próxima de estruturas importantes, como vasos sanguíneos, nervos e órgãos da região pélvica.
Diante da extensão da perda óssea, a equipe optou pela reconstrução com enxerto estrutural. O procedimento permitiu recuperar a sustentação necessária para a colocação de uma nova prótese.
Reconstrução

A preparação para a cirurgia começou antes da entrada da paciente no centro cirúrgico. O enxerto ósseo foi submetido a exames de imagem e a equipe utilizou modelos tridimensionais para simular a reconstrução da pelve.
A partir da reprodução da anatomia da paciente, foram planejados previamente os cortes no enxerto, a posição dos parafusos e a implantação da nova prótese. Segundo a equipe médica, a estratégia permitiu antecipar etapas de uma operação considerada tecnicamente complexa.
O tecido utilizado foi fornecido pelo Banco de Tecidos do Into. Antes de ser disponibilizado para o procedimento, o material passa por protocolos de processamento, descontaminação e testes para agentes infecciosos, além de permanecer armazenado em condições específicas de temperatura.
Diferentemente dos transplantes de órgãos sólidos, o enxerto ósseo estrutural não exige o uso permanente de medicamentos imunossupressores. A expectativa é que, ao longo do processo de recuperação, o organismo da paciente incorpore o tecido transplantado.
Recuperação
Após a cirurgia, a paciente apresentou evolução inicial considerada positiva pela equipe. No primeiro retorno pós-operatório, estava sem dor importante e utilizava apenas analgésicos simples.
A etapa seguinte será acompanhar a consolidação e a integração do enxerto à estrutura óssea da paciente. A reabilitação com apoio progressivo só deverá começar após a consolidação da reconstrução.
A previsão inicial é de que, caso a evolução ocorra conforme o esperado, os primeiros passos possam ser realizados aproximadamente três meses após a cirurgia. O processo poderá incluir o uso de esteira antigravitacional, equipamento que reduz a carga sobre os membros inferiores durante a recuperação.
O procedimento representa uma alternativa para casos de grandes perdas ósseas associadas a próteses de quadril, situações consideradas raras e de elevada complexidade. Além do cirurgião responsável, a operação dependeu da atuação integrada de especialistas em diferentes etapas, desde a preparação do enxerto e o planejamento tridimensional até a reconstrução e o acompanhamento pós-operatório.