PATRÍCIA PASQUIN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Devido a alta de casos de sarampo, a Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) convocou os países das Américas a intensificarem as ações de imunização. A Semana de Vacinação nas Américas começa neste sábado (25) e vai até o próximo (2).
As coberturas vacinais não foram suficientes para evitar o aumento acelerado da doença. Segundo a organização, em 2025, foram confirmados 14.767 casos em 13 países, quase 32 vezes mais do que em 2024.
Em 2026, até 5 de abril, mais de 15,3 mil casos de sarampo já haviam sido registrados. O montante é superior a 2025.
Para o diretor da Opas, Jarbas Barbosa, o principal desafio não é a disponibilidade de vacinas, mas chegar a tempo às pessoas que ainda não estão protegidas. A desinformação, a baixa percepção de risco e as barreiras de acesso contribuíram para a queda das coberturas em alguns grupos. A meta é imunizar pelo menos 95% da população com duas doses.
A região das Américas perdeu, em novembro de 2025, o status de área livre da transmissão endêmica do sarampo.
O Brasil ainda mantém a recertificação conquistada em 2024. O primeiro foi entregue em 2016, mas perdido em 2018 após fatores como fluxo migratório de países vizinhos, reintrodução do vírus no Brasil e novos surtos da doença.
Para Renato Kfouri, presidente da Câmara Técnica para a Eliminação do Sarampo, Rubéola e Síndrome da Rubéola Congênita do Ministério da Saúde, o sarampo continua sendo uma ameaça.
“Conseguimos a recertificação de zona livre do sarampo justamente no momento de maior circulação do vírus nas últimas décadas nas Américas. Então tão difícil quanto foi conquistar essa certificação é nos mantermos livres do sarampo, porque Estados Unidos, Canadá e México, América do Norte, e aqui ao lado, na Argentina, Bolívia, Paraguai registrando casos, e com o fluxo de pessoas diário, é inevitável que pessoas com sarampo entrem em nosso país”, afirma o especialista que também vice-presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações) e secretário do Departamento de Imunizações da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria).
“Não é só pedir para os outros conterem sarampo. É fundamental fazermos a lição de casa que é manter as pessoas vacinadas para que esses casos importados que entram no Brasil não se transformem novamente em transmissão sustentável da doença”, completa Kfouri.
SITUAÇÃO DO SARAMPO NO BRASIL
Dados do Ministério da Saúde mostram que, até 6 de abril, o país havia contabilizado dois casos de sarampo, ambos na região Sudeste (São Paulo e Rio de Janeiro). No ano passado, foram 38 –os registros dos dois anos referem-se aos importados. Em 2018, 2019 e 2020, o número de infecções no Brasil chegou a 9.329, 21.704 e 8.035, respectivamente.
O sarampo é uma doença viral contagiosa, transmitida pelo ar, especialmente em ambientes fechados e com grande circulação de pessoas. Os principais sintomas incluem febre alta, tosse, coriza, conjuntivite e manchas avermelhadas na pele, que geralmente surgem entre sete e 14 dias após a exposição.
A transmissão é respiratória, de pessoa para pessoa. O que faz da doença ser mais transmissível é a capacidade das partículas virais se manterem em aerossol e suspensão.
“Se entra alguém com sarampo numa sala e essa pessoa sai, o vírus continua lá; às vezes por horas. Um caso de sarampo gera cerca de 16 a 18 outros casos em não vacinados”, explica Kfouri.
O esquema vacinal recomendado pelo Ministério da Saúde prevê duas doses: a primeira aos 12 meses de idade, com a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), e a segunda aos 15 meses, com a tetraviral (que inclui varicela).
Pessoas de 1 a 29 anos devem ter duas doses da tríplice viral, enquanto adultos de 30 a 59 anos devem ter pelo menos uma. Profissionais de saúde precisam comprovar duas doses independentemente da idade. Em situações de surto, crianças de 6 a 11 meses podem receber a dose zero.
De acordo com o Ministério da Saúde, as coberturas vacinais da tríplice viral são de 91,12% (1ª dose) e 77,46% (2ª). Na falta da tetraviral, a segunda dose é ministrada com a tríplice viral + vacina varicela monovalente. Os dados do painel são referentes às doses aplicadas até 1º de março.
“Vigilância deve estar atenta e suspeitar de todos os casos suspeitos, atuar precocemente, isolar, colher, diagnosticar, vacinar contato e cobertura vacinal elevada. Não tem outro remédio. É desafiador. Como foi na COP30, com a aglomeração de pessoas do planeta no mesmo local, a Copa do Mundo é o mesmo fenômeno. Vai ser o epicentro do sarampo. Brasileiros indo pra lá e voltando com risco de trazer o sarampo, se não estiver vacinado”, finaliza Kfouri. Em 2026, a competição será realizada nos Estados Unidos, no México e no Canadá.