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Saúde

Acre tenta recuperar confiança e ampliar vacinação contra HPV

Desinformação após episódio de 2017 derrubou a cobertura no estado, que agora aposta em capacitação e ações nas escolas.

Redação Jornal de Brasília

02/06/2026 10h38

vacina hpv

Foto: Sandro Araújo/Agência Saúde-DF

Apesar de avanços nos últimos anos, o Acre segue entre os estados com menor cobertura vacinal contra o HPV no país. No ano passado, os índices ficaram em 59% entre as meninas e 50% entre os meninos, abaixo da média nacional de 86% e 74,5%, respectivamente.

A queda é associada a um episódio ocorrido em 2017, quando 74 adolescentes acreanos apresentaram sintomas após receberem o imunizante. A investigação concluiu que os componentes da vacina não causaram os problemas, mas o caso repercutiu nacionalmente e alimentou uma campanha de desinformação.

Segundo a coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações no Acre, Renata Quiles, o número de notificações de possíveis efeitos adversos subiu de 14 para 127 em seis meses, impulsionado pelo medo da população. Doze jovens com sintomas mais graves foram avaliados na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, e os especialistas concluíram que dois irmãos tinham epilepsia de origem genética e os demais apresentavam crise psicogênica não epilética, uma resposta física involuntária ao estresse.

Entidades médicas e especialistas ressaltam que esse tipo de reação não tem relação biológica com o material das vacinas. Mesmo assim, a diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações, Mayra Moura, afirma que o movimento antivacina se aproveitou do caso no Acre para espalhar medo. Ela também avalia que a resistência de parte dos pais, que associam a vacina à ideia de “sexualidade precoce”, agravou o cenário.

O impacto foi mais forte entre adolescentes. Em 2018 e 2019, menos de 10% deles compareceram aos postos para se vacinar no estado, segundo Renata. A coordenadora afirma que a investigação realizada após o episódio não teve a mesma repercussão que a campanha de desinformação, o que dificultou a recuperação da confiança.

Desde então, profissionais de saúde e gestores passaram a investir em ações para recompor a cobertura. Entre as estratégias estão capacitações para trabalhadores da saúde, inclusive os que atuam em aldeias indígenas e comunidades isoladas, além de treinamentos sobre comunicação para enfrentar a hesitação vacinal.

No município de Porto Walter, na fronteira com o Peru, a cobertura em 2025 chegou a 72% entre as meninas e 68% entre os meninos. O coordenador de Imunizações, Anderson Cleiton Baraúna, relatou ações em escolas e a criação do Cinema da Imunização, em que adolescentes vacinados recebiam ingresso para assistir a filmes. Segundo ele, mais de 200 adolescentes foram imunizados com a iniciativa.

Especialistas afirmam que os efeitos da desinformação podem ser revertidos, mas exigem tempo e diferentes estratégias combinadas. A vacinação contra o HPV, dizem, é uma medida central para prevenir cânceres associados ao vírus.

Estudo recente citado na reportagem aponta que os cânceres causados pelo HPV matam cerca de 7,5 mil brasileiros por ano. O câncer de colo do útero, o mais frequente entre eles, deve registrar 19 mil novas ocorrências por ano entre 2026 e 2028. O Acre aparece como o quinto estado com a maior taxa de incidência.

A vacina oferecida pelo SUS protege contra quatro tipos do vírus, incluindo os tipos 16 e 18, de maior risco. O Ministério da Saúde também mantém o resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos que não foram imunizados na idade recomendada, e mais de 217 mil jovens já foram vacinados.

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