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Um mês após demissão, Ernesto diz que Bolsonaro faz governo ‘sem alma nem ideal’

Após dois anos como chanceler, Ernesto pediu demissão sob pressão da cúpula do Congresso e em meio a desavenças

Marília Miragaia
São Paulo, SP

Cerca de um mês após pedir demissão do cargo de ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo publicou neste sábado (1º) em seu perfil em uma rede social uma sequência de postagens de tom crítico ao governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“Um governo popular, audaz e visionário foi-se transformando numa administração tecnocrática sem alma nem ideal. Penhoraram o coração do povo ao sistema. O projeto de construir uma grande nação minguou no projeto de construir uma base parlamentar”, diz uma das postagens.

“Assisti a esse processo com angústia e inconformidade, e fiz o que pude, até onde pude, para preservar a visão original. Nisso estive quase sozinho. Vi confiscarem ao presidente seu sonho, anularem suas convicções, abafarem sua chama. (Não deixei que abafassem a minha.)”, escreveu o ex-ministro.

Após dois anos como chanceler, Ernesto pediu demissão sob pressão da cúpula do Congresso e em meio a desavenças com diferentes setores da sociedade, como empresários, lideranças do agronegócio e até outros setores do governo. Ele foi substituído pelo embaixador Carlos Alberto Franco França.

Acusado de omissão no combate à pandemia, o ex-chanceler queixou-se no texto de sua carta de demissão, publicada no fim de março, de “uma narrativa falsa e hipócrita, a serviço de interesses escusos nacionais e estrangeiros, segundo a qual minha atuação prejudicaria a obtenção de vacinas”.

Em suas postagens na rede social neste sábado (1º), Ernesto afirmou que o governo de Jair Bolsonaro fez avanços, porém em 2020 “a reação do sistema, cavalgando a pandemia, começou a desmantelar essa esperança”.

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O ex-chanceler também fez comentários sobre reformas e privatizações, alguns dos temas políticos estratégicos para o governo, que rendeu apoio do mercado e a marca de liberal a Bolsonaro em sua eleição.

“Leilões, privatizações, reformas tributária e administrativa? Se não for combatida a essência do sistema, estas serão reformas ‘Gattopardo’: mudanças para que tudo permaneça igual. Nenhuma ‘articulação política’ vai mudar o Brasil. Somente a pressão popular”, afirmou na postagem.

Em uma das mensagens, porém, Ernesto adota um tom mais conciliatório e afirma que continua apoiando o presidente. “Muitos desprezam o sonho do PR [presidente da República] de mudar o Brasil. Eu, ao contrário, sempre acreditei, sempre estive e estarei com ele no seu amor pela liberdade e sua luta para libertar o povo de um sistema opressor. Com o apoio popular estou certo de que ele terá a força necessária para vencer.”

Neste sábado, apoiadores do presidente, vestindo verde e amarelo, se reuniram na avenida Paulista, em São Paulo, em uma manifestação pela defesa da abertura do comércio sem restrição na pandemia. Tradicionalmente, quem ia às ruas no 1º de maio, Dia do Trabalhador, eram as centrais sindicais que, por segurança, organizaram encontros virtuais.

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