O primeiro debate presidencial, realizado na noite de ontem pela Rede Bandeirantes, mostrou que há apenas três correntes em disputa. Na primeira, de confronto com o governo Lula, José Serra (PSDB) busca quebrar os paradigmas da atual administração federal. Na segunda, de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), que é contra tanto o lado que é hoje governo, quanto o que faz parte do principal bloco de oposição ao Palácio do Planalto. E o terceiro, composto por Dilma Rousseff (PT) defendendo a bandeira do presidente Lula, com Marina Silva (PV) como uma espécie de linha auxiliar. No mais, foi uma disputa morna, cuja monotonia foi quebrada quase sempre pelo candidato do PSOL, com ironias e fazendo-se passar por uma figura discriminada politicamente. O que não é verdade.
Era de se esperar que, no momento em que os candidatos trocassem perguntas entre si, Serra procurasse Dilma como forma de encurralá-la. O roteiro já estava traçado e foi exatamente isso que fez, quando colocou para a petista perguntas incômodas sobre a falta de apoio às APAEs, a incapacidade de expansão de portos e aeroportos e o fim dos mutirões de cirurgias. Ela, por sua vez, tentou tergiversar, levando as respostas para um assunto que domina – os dados econômicos. Falou de indústria naval, aprofundamento do programa “Luz para todos” e evitou cair no debate sobre a Saúde. Fugiu pelo lado dos números da Educação e, sempre que pode, fez comparações entre os governo de Lula e de Fernando Henrique Cardoso.
Enquanto isso, Marina tentava passar a imagem de que não era uma radical da ecologia, afirmando que a defesa do meio ambiente é perfeitamente compatível com o progresso e, sobretudo, o agronegócio. Mas foi tachada por Plínio como uma candidata que todo o tempo evitou se comprometer e esteve próxima das propostas do PT, partido do qual se desfiliou há pouco mais de um ano. Aliás, o candidato do PSOL, ele mesmo um ex-petista, foi o único que procurou fazer contraponto aos demais adversários, inclusive dizendo que no debate havia um excesso de “bom-mocismo”.
Errado ou certo, o fato é que Plínio perdeu-se em ironias (chegou a dizer que estava confirmado por que Serra era considerado hipocondríaco, tamanha sua fixação em falar sobre Saúde) e afirmando que era discriminado, sobretudo pelos meios de comunicação. E defendeu um programa radical, certamente assustador para o brasileiro médio, ao afirmar que apenas através da força das invasões de terra (para ficar apenas neste exemplo) sairá a reforma agrária.
O saldo do primeiro debate entre os presidenciáveis é, no entanto, positivo. Deu a chance de cada um se mostrar bem ao eleitor: dos quatro, Serra é o mais seguro. Dilma, apesar da liderança nas pesquisas de opinião, tem enorme dificuldade com os temas sociais, que tendem a ser seu calcanhar de Aquiles. Marina faz um gênero que o eleitor ainda não entende: o de passar propostas complexas, dispersas, sem comparações com aquilo que pensam seus adversários ou entrar em rota de colisão com eles. E Plínio chama a atenção pela negação de tudo e uma intenção política anacrônica com o capitalismo que o Brasil, aos trancos e barrancos, assumiu há algumas décadas.