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Suplente de Alvaro Dias que virou delator deixa partido de Sergio Moro

O empresário Joel Malucelli, um dos principais do Paraná, pediu desfiliação do partido no qual já foi um destacado dirigente

Por FolhaPress 13/01/2022 8h04
Foto: Reprodução

Felipe Bächtold
São Paulo, SP

A chegada do ex-juiz Sergio Moro ao partido Podemos ocorreu em momento de desligamento da sigla de um conhecido personagem da política paranaense que teve empresas de seu conglomerado na mira da Operação Lava Jato.

O empresário Joel Malucelli, um dos principais do Paraná, pediu desfiliação do partido no qual já foi um destacado dirigente. Ele é primeiro suplente do senador Alvaro Dias, também do Podemos, principal articulador político de Sergio Moro, pré-candidato à Presidência da República.

Malucelli hoje é colaborador da Justiça e afirma que não pretende em hipótese alguma assumir a cadeira no Senado. Afirma que deixou o partido porque “cansou da política” e que não há relação entre o pedido de desligamento e a entrada do ex-juiz na legenda –ambos ocorridos em novembro passado.

Ele é fundador e dá nome ao conglomerado empresarial J.Malucelli, que atua em diferentes setores da economia, como bancário, energético e de comunicação –tem sociedade na TV Bandeirantes no Paraná.

Seu patrimônio declarado na campanha de 2014 somava R$ 236 milhões.

De presidente do Podemos do Paraná e financiador de campanhas, Malucelli foi para o ostracismo político em 2018, ano em que foi preso em uma operação estadual sobre corrupção em contratos de melhorias em estradas rurais no governo do tucano Beto Richa, também detido naquela operação.

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A prisão ocorreu durante a campanha eleitoral daquele ano, na qual Alvaro Dias concorria à Presidência da República, também pelo Podemos. O senador na ocasião dizia que não se poderia “transferir responsabilidades para quem quer que seja”. O suplente foi um de seus principais doadores na campanha anterior do senador, em 2014.

Meses antes da prisão, a construtora do grupo, empresa precursora do conglomerado empresarial nos anos 1960, tinha sido alvo de fase da Lava Jato do Paraná que mirava supostas irregularidades na formação de consórcio que venceu concorrência para a obra da usina de Belo Monte.

O principal alvo daquela etapa da investigação era o ex-ministro Delfim Netto, que sempre negou ter cometido qualquer ilegalidade.

Duas empresas do grupo empresarial paranaense fizeram parte do consórcio da hidrelétrica, a J.Malucelli Construtora –hoje rebatizada de Companhia Paranaense de Construção– e a J. Malucelli Energia.

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Joel Malucelli não foi incluído como suspeito, mas sim um executivo do grupo, Celso Jacomel Junior, que também sofreu buscas. O empresário anunciou em 2012 a saída do comando dos negócios familiares, embora até hoje mantenha atividades profissionais.

Moro, na ocasião, decidiu bloquear valores das duas firmas –medida tomada para garantir que haja ressarcimento aos cofres públicos ao fim do processo.

A construtora, a empresa de energia e o executivo tiveram R$ 183 mil bloqueados.

Essa etapa da Lava Jato, porém, acabou não se convertendo em denúncia apresentada pela força-tarefa de Curitiba.

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Em 2019, juízes de segunda instância decidiram que os inquéritos sobre Belo Monte não tinham relação com o Paraná e deveriam tramitar no Distrito Federal. Na época, Moro já havia deixado a magistratura para ser ministro no governo Jair Bolsonaro.

Em 2017, antes da operação, Malucelli, hoje com 76 anos, assumiu o diretório paranaense do Podemos a convite de Dias, segundo disse à época, para alavancar a candidatura do amigo a presidente no ano seguinte. Antes, o empresário foi filiado ao PSD e cotado para disputar o governo do estado. Deu entrevistas antes da eleição de 2014 como pré-candidato.

Também se tornou conhecido como dirigente esportivo –presidiu o Coritiba e foi dono do clube Malutrom, que chegou a disputar competições nacionais.

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A investigação da Lava Jato, mesmo sem processo penal, provocou consequências sobre o conglomerado empresarial.

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Em 2020, firmaram um acordo de leniência (espécie de delação empresarial) três empresas do grupo –a construtora, a MLR Locações de Máquinas e a Televisão Icaraí. O compromisso previa o pagamento aos cofres públicos de R$ 100 milhões e colaboração em apurações da Lava Jato, Operação Greenfield e no caso das estradas rurais.

Em troca, o Ministério Público se comprometeu a não apresentar ações de natureza cível contra as empresas e a pedir o desbloqueio de valores na Justiça. O acordo leva a assinatura de Deltan Dallagnol, à época coordenador da força-tarefa da Lava Jato. Hoje, após ter pedido exoneração, ele recebe salário do partido Podemos e vai se lançar candidato, provavelmente a deputado federal.

Na esfera penal, Joel Malucelli também firmou acordo de colaboração. Em agosto do ano passado, a TV RPC (afiliada da Globo) mostrou trecho de depoimento em que ele diz que houve cobrança de propina de 8% no programa estadual de estradas rurais na época do governo Richa.

O acordo prevê que ele fique em regime semiaberto diferenciado, mas só após a confirmação da condenação na Justiça. O caso das estradas, porém, retrocedeu várias etapas porque o Supremo Tribunal Federal decidiu em agosto passado que ele deve tramitar na Justiça Eleitoral, e não na Justiça Estadual do Paraná.

Os detalhes dos demais depoimentos de colaboração do empresário e das empresas são sigilosos e ainda não vieram a público.

O Podemos adotou o discurso anticorrupção como uma de suas bandeiras institucionais.

Alvaro Dias é um dos mais enfáticos defensores no Congresso da prisão de réus condenados em segunda instância, também uma das causas de Sergio Moro.

Em dezembro, o jornal Folha de S.Paulo mostrou que Dias teve a sua campanha de 1998 financiada pelo operador financeiro Alberto Youssef, pivô da Lava Jato chamado por Moro em sentença de “criminoso profissional”.

O congressista afirma que não houve nada de irregular com as receitas de campanha e que o Ministério Público já arquivou apuração sobre o caso.

Empresário diz que não administrava empresas investigadas

Outro lado

Procurado pela reportagem, o empresário Joel Malucelli afirmou que não é réu nas situações citadas pela reportagem e que os casos se encontram sob segredo de Justiça, “condição esta que o impede de tecer comentários sobre os mesmos, exceto o fato de estar exercendo amplamente sua defesa, acreditando na Justiça”.

“Tem a esclarecer que não é administrador de quaisquer das empresas mencionadas, as quais encontram-se em plena atividade de exercício regular de seus objetos sociais”, disse, por meio de sua assessoria.

A reportagem também o questionou sobre o lançamento pelo partido da pré-candidatura de Sergio Moro. Ele afirmou apenas que não tem qualquer relacionamento com o ex-juiz e que se “reserva ao direito de não emitir qualquer opinião política sobre a pré-candidatura”.

À Justiça Federal as empresas do grupo J.Malucelli e o executivo Celso Jacomel sempre negaram participação em qualquer ajuste ou fraude com a finalidade de lesar a administração pública federal, conforme suspeitavam os investigadores da Lava Jato.

A reportagem também contatou o senador Alvaro Dias. O congressista disse que o suplente já deixou a vida pública e que, em carta à direção do Senado em 2018, o empresário já havia demonstrado seu desconforto com a sua condição de possível substituto.

O documento escrito pelo empresário, na ocasião, dizia que havia “tentativas injustas de atingir moralmente”, “talvez” para desgastar a candidatura do senador.

Procurado, Sergio Moro não se manifestou a respeito.








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