Mesmo com o apoio do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pode enfrentar problemas em São Paulo, maior colégio eleitoral do País. Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado ao Planalto, pretende colocar a capilaridade do partido no Estado a serviço da candidatura do ex-governador de Goiás.
Na última eleição, o PSD se consolidou como a principal força política de São Paulo ao assumir o comando de cerca de um terço das prefeituras do Estado. Entre os redutos administrados hoje pela legenda estão Ribeirão Preto e São José dos Campos, ambas cidades do interior que figuram entre as dez mais populosas de São Paulo. O PL, por sua vez, terminou o pleito municipal em segundo lugar, com pouco mais da metade do número de prefeituras conquistadas pelo partido de Kassab.
A estratégia do PSD em São Paulo passa principalmente por associar Caiado a Tarcísio. Nos bastidores, integrantes da legenda já apelidaram a dobradinha de “Carcísio”.
Ex-prefeito de Ribeirão Preto e candidato a deputado federal, Duarte Nogueira (PSD) afirma que sua comunicação trabalhará a dobradinha Caiado-Tarcísio. Ele projeta que, inicialmente, os prefeitos e candidatos a deputado podem fazer campanha para outros presidenciáveis, mas que a tendência é que passem a pedir voto para Caiado com a consolidação da sua candidatura.
Ele destaca o papel de Kassab nesse processo. “Ele é um líder partidário que controla a organização do partido desde a sua fundação. Conhece todo mundo e, mesmo aqueles que têm preferência por um ou outro (candidato), têm respeito ou gratidão grande pelo Kassab. Isso vai pesar no posicionamento”, afirmou Nogueira.
Apesar do incômodo no entorno de Tarcísio com a tentativa do PSD em associar a imagem do governador a de Caiado, os dois dividiram palco e trocaram elogios na segunda-feira, 27, na abertura de uma feira agropecuária em Bebedouro (SP).
“Quero fazer os cumprimentos ao nosso governador Tarcísio, que como ministro me ajudou muito como governador de Goiás. E como governador, tem botado asas nesse estado aí que está voando acima de todo mundo”, disse Caiado.
Em seu discurso, Tarcísio retribuiu os cumprimentos e elogios e se referiu ao candidato do PSD como “o sempre governador, senador e deputado”. “Um governador super aprovado, que fez um trabalho importante no estado de Goiás. Meu amigo de longa data”, afirmou Tarcísio.
No domingo, o governador paulista faltou à convenção do PSD que confirmou o apoio do partido à sua reeleição e também oficializou a candidatura presidencial do ex-governador de Goiás.
No horário do evento, Tarcísio estava em Ribeirão Preto (SP), cidade que sofreu com estragos causados por temporais recentes. Porém, como mostrou o Estadão, a decisão de não ir ao evento já era discutida desde que Kassab publicou nas redes sociais um convite à convenção com a imagem de Caiado e Tarcísio juntos, dando margem à interpretação que os dois são aliados.
A preocupação era que uma eventual fotografia com Tarcísio e Caiado juntos em um evento partidário para celebrar a candidatura do ex-governador de Goiás poderia gerar ruídos com Flávio, que é o nome do Tarcísio para o Palácio do Planalto.
Ao final, o governador paulista foi representado por Roberto Carneiro, presidente do Republicanos paulista e ex-secretário de Governo de São Paulo. Ele deixou o cargo na última segunda-feira, 27, para se dedicar à campanha de reeleição de Tarcísio.
No evento, Kassab disse que o PSD segue apoiando o chefe do Executivo paulista e insistiu na dobradinha Caiado-Tarcísio no Estado.
“Nesse prédio [sede do PSD na região central da capital paulista] tem um comitê do Caiado presidente, Tarcísio governador. O candidato do Tarcísio a presidente é outro. Mas quem vai ganhar a eleição em São Paulo é Caiado para presidente e Tarcísio para governador”, disse o dirigente partidário em entrevista coletiva a jornalistas.
Em entrevistas recentes, Kassab afirmou que já fez mais de 20 agendas com Caiado no Estado pedindo voto também para o governador.
Reservadamente, um aliado próximo de Tarcísio avalia que a tentativa do PSD de associar a imagem do governador à de Caiado não representa, por si só, um problema para o chefe do Executivo paulista, uma vez que o goiano não tem uma rejeição elevada.
O receio, porém, é que qualquer gesto do governador seja interpretado como um aceno à candidatura do PSD. Por isso, diz esse aliado, Tarcísio precisa demonstrar incômodo com atitudes como a de Kassab, mesmo sem estar realmente incomodado.
Nos bastidores do PSD, a avaliação é que defecções em favor de Flávio Bolsonaro devem acontecer, mas se tornaram menos prováveis diante dos desgastes recentes do senador e da entrada de Kassab na chapa. Aliados argumentam que, com o Gilberto Kassab na vice de Caiado, pedir votos para o senador do PL significaria, na prática, virar as costas para o presidente nacional da própria legenda.
No caso de São Paulo, em particular, o constrangimento é maior, pois Kassab tem sua atuação política voltada para o Estado e deixou há poucos meses o cargo de secretário de Governo de Tarcísio, função que tinha entre suas atribuições a interlocução com os prefeitos.
Entre integrantes do PSD, há a avaliação de que Caiado é um nome “menos pesado” para ser carregado nos palanques do que Flávio Bolsonaro, uma vez que o goiano tem menor rejeição, não está envolvido em controvérsias e se posiciona mais ao centro.
Esse perfil deve atrair apoios de outras legendas em São Paulo. Segundo apurou o Estadão, no MDB, a tendência é que a maioria das lideranças estaduais apoie Caiado, tanto por sua posição mais moderada quanto pela aliança entre MDB e PSD em estados estratégicos, como Goiás e Rio Grande do Sul. A principal exceção deve ser a capital paulista, onde o prefeito Ricardo Nunes (MDB) já declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Por concentrar o maior colégio eleitoral do País, São Paulo é visto como estratégico tanto para o PT quanto para o PL. Na campanha de Flávio, a leitura é que uma vantagem expressiva no Estado pode ajudar o bolsonarista a compensar o bom desempenho de Lula no Nordeste. Já entre os petistas, a preocupação é evitar que a distância entre os dois não seja maior do que em 2022
Justamente por conta desse cenário é que Flávio decidiu transferir o QG de sua campanha de Brasília para a capital paulista. A mudança mira reforçar as agendas conjuntas com Tarcísio de Freitas, que trabalha para liquidar a disputa estadual no primeiro turno.
Estadão Conteúdo