Ricardo Vale, deputado distrital eleito e secretário-geral do PT, explicou em entrevista ao Jornal de Brasília que a oposição adotada pelo partido em relação ao governo Rollemberg se justifica pelo temor de uma guinada neo-liberal no Buriti. A proximidade com Aécio Neves (PSDB), durante a campanha, é o que leva Vale a acreditar nisso. “Temo políticas de demissão de trabalhadores, de arrocho salarial, não cumprimento de acordos coletivos. Isso, evidentemente, não vamos permitir que aconteça”, advertiu.
O PT já fez alguma avaliação sobre o que conduziu ao resultado das eleições passadas?
Ainda não e acho que foi uma decisão correta. Até porque a gente ainda precisa entregar esse governo. Somos governo até o dia 31 de dezembro. Existem muitos projetos para ser entregues, muita coisa para fazer, a transição também para fazer. E o partido decidiu fazer essa avaliação, tanto da campanha quanto do governo, a partir do final de janeiro. Acabamos de sofrer uma derrota grande, mas somos governo e precisamos dar conta dessas demandas até o fim do ano.
É possível mensurar o tamanho da derrota do PT no DF? O que muda no partido nos próximos quatro anos?
Ainda não. Mas foi uma derrota muito doída. Porque temos uma avaliação de que fizemos um bom governo, realizamos importantes ações na área do transporte, na saúde, na educação. Fomos um governo que contratou quase 30 mil servidores concursados. E a gente esperava que a população pudesse enxergar toda essa ação e pelo menos fôssemos para o segundo turno, mas não conseguimos. Mas a população também deu um recado, reprovou nosso projeto. De tal modo que precisamos fazer uma análise com muita tranquilidade, avaliar qual foi o recado que os eleitores mandaram para o nosso partido. Para que, a partir daí, possamos tomar um rumo diferente na política. É preciso discutir novos rumos para o partido, evidentemente.
Existe algum nome do partido em condições de despontar como forte candidato ao governo para 2018?
Sim. O partido tem bons nomes, muitos quadros com condições de disputar as eleições e precisamos estar construindo isso nos próximos anos. O PT é um partido grande nacionalmente e tem bons quadros no DF. Temos que trabalhar no sentido de construir essa possibilidade. Seria muito ruim para o PT chegar em 2017 ou 2018 sem um nome para voltar a comandar o GDF. Existem bons nomes e a gente precisa primeiro fazer essa avaliação, de como recuperamos a credibilidade junto à população, à classe média, aos trabalhadores, servidores públicos. A partir daí, a gente comece a discutir um nome. Primeiro discutir a reconstrução para depois discutir qual o nome a ser apresentado nas próximas eleições.
Quem foi derrotado nestas eleições teria condições de ser indicado?
Todos nós fomos derrotados. Acho que poderia ser um quadro que não foi eleito agora. O PT é um partido muito ligado aos movimentos sociais e toma decisões coletivas. Mais importante do que o nome é o projeto que o partido vai apresentar à sociedade. Não adianta apresentar um nome por apresentar, se esse modelo de gestão vou reprovado. Vamos ter que construir um novo projeto. Aí construindo isso, o nome a gente discute depois.
Mas o PT ainda detém a maior bancada na Câmara Legislativa, com quatro cadeiras. O partido está reivindicando a presidência?
Eu acho que não deveria reivindicar. Embora tenha quadros com capacidade para ser presidente. Com a eleição de Rodrigo Rollemberg, o presidente tem que ser alguém um pouco mais alinhado ao governo. E o PT precisa fazer um trabalho de oposição, fiscalização, de apoio ao novo governo. O partido precisa ter uma linha, de defender aquilo que for bom, sem fazer uma oposição a qualquer custo. Se a população apostou em Rollemberg, é porque acha que ele resolverá os problemas da nossa cidade. E o partido precisa pensar dessa forma, fazer o possível para que o governo dê certo. Mas enquanto oposição, nós temos que cobrar todas as promessas, algumas muito boas, como a eleição para administrador, que acho que é algo que é preciso ser feito mais rápido possível. A proposta dos impostos dos remédios é excelente e esperamos que ele possa implementar. Além dos VLTs em Ceilândia, Sol Nascente, Taguatinga, da Rodoferroviária, se não me engano, até a Esplanada, Asa Norte até o Aeroporto. Nosso partido, mesmo na oposição, tem que ajudar a viabilizar bons projetos e não ficar disputando presidência da Câmara. Acho que o momento é de fazer a nossa reflexão, esperar 2018 e ajudar no que for possível na oposição, além de torcer para que tudo dê certo.
E se algum filiado ao PT for convidado a fazer parte do governo?
O partido definiu que será oposição. Como eu falei, defenderei que o partido faça uma oposição moderada, responsável. Agora, se a pessoa quer fazer parte do governo, precisa se afastar do governo, nem precisa passar por processo de expulsão. Não vejo problema, desde que a pessoa se afaste do partido.
Quando as eleições para administrador forem regulamentadas, o PT deve indicar nomes para as disputas?
Sim. O PT é um partido que tem uma penetração muito grande nos movimentos sociais, nas cidades, nos movimentos culturais, esportivos. Se a eleição é democrática como o governador colocou que qualquer um poderia participar. Ele falou das eleições, embora não tenha definido claramente como elas serão. Mas acho que qualquer cidadão, independente da questão partidária, pode participar. Não vejo porque um militante do PT não poderia participar. A não ser que o governador diga que nós não podemos participar, aí vamos ter que ver como que faz.
Sua base eleitoral se encontra nas cidades da Saída Sul. O senhor pretende indicar candidatos para disputar as administrações nessas localidades?
Eu, particularmente, não. Não indicaria ninguém, mas se aparecesse algum militante do partido se colocando nessa posição, eu provavelmente apoiaria, não só lá, como em outras cidades. É legítimo. Não indicaria, porque vou ser oposição.
Como minimizar os danos para a imagem do PT dessa crise financeira que o governo tem enfrentado?
Isso se resolve pagando todas as dívidas. Não tem forma melhor de amenizar essa questão chata que a gente chega com o governo honrando todos os compromissos. Mas o que me tranquiliza é saber que o governador tem nos passado que ele e todas a sua equipe vão resolver e honrar todos os compromissos, ainda com a possibilidade de passar o governo com caixa bom para o próximo governador. Para mim, não há outra forma de amenizar os compromissos, a não ser pagando.
Apesar de contar com poucos deputados, a atual oposição foi muito aguerrida, crítica contra o governo. Como deve ser a postura da bancada do PT?
Acho que até para dr ter credibilidade com a opinião pública, que optou pelo projeto de Rodrigo Rollemberg, a oposição tem que ser responsável e que pense primeiro no Distrito Federal, do que apenas nas questões partidárias ou nas eleições daqui a quatro anos. Vou fazer uma oposição que, no que for preciso, estaremos ajudando o governo, porque entendemos que o governo dando certo é bom para a população. Não queremos fazer oposição por oposição. Agora, sabemos que o governador prometeu muita coisa, coisas muito difíceis. Uma das preocupações que eu tenho, particularmente, é pela relação que o governador demonstrou com Aécio Neves e o PSDB, eu temo que ele possa implementar políticas de demissão de trabalhadores, de arrocho salarial, não cumprimento de acordos coletivos feitos com várias categorias. Isso, evidentemente, não vamos permitir que aconteça. Somos o Partido dos Trabalhadores e não queremos que seja implementada essa política neoliberal que os governos do PSDB têm implantado em todo o País. Como o Rollemberg assumiu essa missão de ser porta-voz de Aécio na campanha, de que ele não procure implementar essas políticas que a gente considera retrocesso para a classe trabalhadora do DF.
O senhor acredita que ele já deu uma guinada neoliberal?
Ele já andou falando que vai fazer uma política de cortes, que ia fazer uma análise sobre uma reforma administrativa, coisas que nos deixam preocupados. Precisamos fortalecer empresas públicas. Temos medo de que CEB, BRB, Caesb possam ser privatizadas. O governador não foi claro em seu plano de governo com relação a isso. Então temos uma certa preocupação e o nosso papel será de fazer com que isso não aconteça. Seria muito ruim perder empresas como essas. Onde o PSDB governou acabou fazendo essa política de arrocho salarial, de demissões. Foi assim no governo Fernando Henrique Cardoso e em vários estados. Temos uma certa preocupação de que Rollemberg possa acompanhar essa cartilha neoliberal.
A coligação nacional, entre PT e PMDB, deve ser mantida no Distrito Federal?
Nós estamos tendo muito problema nacionalmente. A relação tem tido problemas em vários estados. O cenário nacional está muito indefinido. O PT e o PMDB podem continuar, tanto é que estiveram juntos no governo Agnelo. É possível, sim, que os dois partidos conversem, apesar das diferenças. Estamos construindo juntos, seja na Câmara ou no processo de oposição. Mas acho que vai depender muito do PMDB do que do PT, que tem sua linha de oposição bem definida. E do PMDB ainda não sabemos bem como vai ser.
As tensões de outros estados acontecem também no DF?
A relação com Filippelli e PMDB é muito tranquila. Evidentemente, não sei quais serão os planos do PMDB e o PT tem que construir seu futuro. Quando ficar mais claro esse tema é que vamos ter claro se os partidos vão juntos ou separados.
Está superada aquela contradição entre PT de um lado e rorizismo do outro?
Não. Acho que o PT de um lado e o Rorizismo e o Arrudismo do outro ainda são dois polos que existem no Distrito Federal. E por uma série de questões conjunturais, essa eleição acabou caindo no colo do Rodrigo Rollemberg, que começou como terceira ou quarta possibilidade. Mas o problema era Arruda, que estava muito forte, e todo esse processo antipetismo que pegou nacionalmente e depois chegou ao DF. Acabou que Rollemberg se aproveitou disso muito bem e essa eleição mais que caiu no colo dele do que ele ganhou pelos próprios méritos. Conversando com a população depois das eleições, as pessoas mal sabem quais são os programas de governo. Elas só falam sobre as eleições nas administrações regionais. Foram muito mais as circunstâncias que o levaram a ser governador do que a própria política.