Durante três anos uma das raras vozes de oposição na Câmara Legislativa, a deputada Celina Leão, recém filiada ao PDT, é enfática ao afirmar que, diante dos índices de rejeição, não acredita na reeleição do governador Agnelo Queiroz. Mas, para ela, há também um paradoxo: não faz sentido um governo com tão pouca aprovação ter tanto apoio no Legislativo. “Talvez por falta de experiência estranho isso, porque qualquer parlamentar, diante de um governo com quase 80% de rejeição, poderia estar na oposição e ficar do lado da população”, disparou. As críticas também são direcionadas aos gastos programados pelo Buriti, que podem ultrapassar o limite previsto pela Lei de Responsabilidade Fiscal e criar uma herança maldita.
Qual o sentido das últimas notícias sobre a licitação de ônibus, com liminares desfavoráveis ao GDF?
Eu tinha certeza que se chegaria a esse termo. Não existe uma licitação com cerca de 170 questionamentos judiciais que possa ser correta. Para fazer um questionamento judicial, o advogado precisa ter no mínimo um fundo de verdade. Só não acreditava que aconteceria tão rápido. A gente percebe que o direito retirado no momento da licitação, que não foi julgado naquele momento, começa a ser julgado no mérito agora. Isso vai, com certeza, mudar todo o cenário e até o cenário das vencedoras, porque já temos a certeza que todas as empresas que ganharam, ganharam com o preço máximo e as empresas que estão tendo agora oportunidade de abrir os envelopes têm preços menores.
Sente-se incomodada com o fato de que só a senhora e mais duas deputadas têm cobrado uma posição mais firme da Câmara Legislativa em relação à licitação?
Sim. É uma questão em que o nosso País precisa avançar muito. O que significa representar a população? O que é ser base de governo e oposição? Acho que, mesmo integrando a base do governo, você não pode se esquivar da responsabilidade de fiscalizar, que é a principal função do Poder Legislativo. Se nós formos pensar em grande produção de leis, isso já está esgotado. Uma vez ou outra você consegue produzir uma lei ou outra de grande eficácia, que vai realmente beneficiar toda a população. Mas a função de fiscalização é a mais importante. Nunca no DF tivemos uma oposição tão pequena e nunca tivemos um governo tão corrupto. Isso, com certeza, tem uma razão. A oposição tem que existir sempre, se não o regime vira uma monarquia. Para nós, é muito frustrante às vezes perceber que tem colegas que gostariam de participar do processo de fiscalização e se sentem impedidos por acreditar que aquilo não cabe a ele, como parlamentar da base. Mas isso vai mudar, porque as ruas, a população renovarão esse processo na eleição. Tenho esperança.
Qual a explicação para a oposição ser tão pequena?
Não consegui explicar ainda. Há momentos em que eu fico pensando se o deputado quer só cargos comissionados para contemplar a base dele, mas aí percebemos que tem deputados que estão hoje com cargos comissionados que nem precisariam, porque têm voto. E esse parlamentar faz opção por trocar um voto independente, um voto de protesto, por um voto talvez mais fisiológico. Eu não consigo achar uma resposta correta para tudo isso. Algumas vezes eu acho que é medo, por existir uma máquina perseguidora. A gente da oposição vive isso: eu e as deputadas Liliane e Eliana. Perseguidas mesmo. Eu falo com todas as letras que a Secretaria de Transparência é um tribunal de exceção que o governo criou para perseguir opositores.
Mas ela não teria outro papel, bem diferente?
Temos lei que fala que a controladoria do Estado não pode ser mais cara do que ela gera de fiscalização. Pois a Secretaria de Transparência não fiscalizou a licitação do transporte, não fiscalizou a obra mais cara do DF, o estádio. Ela está pegando o contrato do Zé, do Pedro, do João, que é ligado a um parlamentar ou a uma deputada que é pré-candidata a governadora ou fiscaliza um ex-governador que quer ser governador novamente. Virou um instrumento de perseguição.
Vem daí a formação da base?
Sim, talvez porque o deputado acha que o apoio da máquina vai garantir uma reeleição, mas muito possivelmente por medo de enfrentar uma máquina tão pesada, como é o governo, e o governo demonstrou na Câmara várias vezes que seria capaz de muita coisa, ameaçando mesmo a gente e criando uma ditadura vermelha. E talvez por falta de experiência ou visão política, porque qualquer parlamentar, com um governo que tem quase 80% de rejeição, poderia estar na oposição e ficar do lado da população.
O que teria sido diferente se houvesse uma oposição mais equilibrada?
Acho que nós não teríamos tantos escândalos, desgastes. Porque eu sou só uma parlamentar e nós conseguimos tantas coisas só de divulgar. Por exemplo, divulgamos a questão das lavanderias hospitalares. O edital foi refeito. Já imaginou com uma bancada de cinco, de seis? Nunca houve um governador que não passasse por uma CPI. Nenhum. O Roriz e o Arruda passaram. O governo do PT não, embora houvesse vários motivos para criar uma: arapongagem, a questão da saúde, do estádio, transporte. O que não faltou foi escândalo. Não é porque não teve corrupção. O DF é o segundo pior estado do Brasil no índice de transparência. Isso significa que ele não tem transparência na gestão, no gasto e isso se transforma em corrupção, porque um estado que não tem transparência, com certeza vai ter corrupção muito grande.
O governo estaria fazendo, para sua sucessão uma estratégia de ganhar por W.O., tentando inviabilizar candidaturas fortes, de Roriz e Arruda?
É uma movimentação muito covarde, que é a cara desse governo, que não conseguiu consolidar nenhuma obra. Ele pensou que fosse ganhar muito voto com o estádio e a população rejeita o estádio, que não é frequentado por pessoas de Brasília. Até a classe média de Brasília tem dificuldades em ir a eventos do estádio, porque são muito caros. Acho que esses eventos foram criados se dirigem só para a classe A de Brasília e que visitam a capital. Agnelo tenta desqualificar possíveis candidatos porque ele sabe que pode ser derrotado por qualquer um deles. Agora, eu acho que a política não vive de vácuo. Se ele desabilitar todo mundo, aparecerá outro para levar o governo. Os partidos vão conseguir um nome que tenha condição de ser candidato. Ele não vai conseguir em 2014 tirar todo mundo do páreo. Ele pode tentar agora tirar o Roriz e Arruda, mas isso não vai impedir a mudança que teremos em 2014?
A senhora acha inviável a reeleição de Agnelo?
Acho impossível, porque quando um governador não tem rejeição pode começar até com 3% dos votos e vai crescendo. Mas rejeição do governador Agnelo é cristalizada. Ele não tem para onde crescer. Se ele ficar com 15% a 20%, com uma disputa acirrada, com outras pessoas que foram governadores e outras figuras políticas aparecendo, eu não acredito na reeleição.
Como a senhora avalia esse “pacote de bondades”, que o governo destinou aos servidores?
Sou presidente da Comissão de Assuntos Sociais, que analisa o mérito de todos esses processos. Nós entendemos que realmente o funcionalismo público precisa de reajustes, porque todas as cobranças de serviços públicos são reajustadas na Câmara. Sobe o IPTU, o IPVA. Agora, eu sou contrária à forma que ele fez, porque foi uma forma política. Ele deveria ter dado os aumentos desde o primeiro ano de governo, no segundo, terceiro anos, sempre com responsabilidade. Não deveria acumular tudo a partir de 2014, porque a previsão que ele fez em cima do orçamento, foi com expansão de 12% da receita, que é um índice que ocorreria dado caso tudo corresse muito bem. Nós fizemos um reajuste para servidores da Câmara que foi de 8%, porque nossa margem que subirá da receita corrente líquida é de 8% e a receita corrente líquida do governo Agnelo é de 12%. Se der alguma coisa errada, nós vamos estourar a Lei de Responsabilidade Fiscal.
Não há aí um conteúdo político?
É importante dar aumento, porque nós sabemos que Brasília é uma capital administrativa e a eleição passa pelo servidor público. Acho que o Agnelo teve essa leitura. Ele sabe que o servidor pode ajudar a elegê-lo, mas ele esqueceu de um detalhe: o servidor também é um usuário do serviço público e ele acredita que esse aumento é algo que ele merece e não que o Agnelo está fazendo um favor para ele. Esse tiro pode sair pela culatra. Quando ele assumiu o governo, o Rogério Rosso tinha deixado um compromisso de reajuste salarial de R$ 800 milhões. Houve um determinado momento em que, inclusive, estouramos a Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso, no Tribunal de Contas, foi ajeitado para que o Agnelo não ficasse inelegível. Eles tiraram os garis da folha, porque, senão, teria estourado. Foi uma maquiagem para não deixar o governador inelegível. Se tivermos uma queda na economia, qualquer coisa que acontecer pode estourar a Lei de Responsabilidade Fiscal, o que poderia trazer inúmeros prejuízos para o DF, que depende de financiamentos pelo Governo Federal. A gente espera que a programação seja cumprida. Mas eu acho que isso não se reverterá em voto e pode ser um problema para 2015.
Isso seria uma herança maldita?
Ele pode deixar heranças malditas de muitos gastos, muitas coisas. Essa pode ser mais uma dessas, se não tivermos os índices positivos. Não foram índices preservatórios. Há um risco e se isso acontecer o risco futuro é imenso. E quando todas as carreiras começaram a receber reajuste, as outras, que ficaram sem aumento, começaram a cobrar e é um direito delas.
Sobre a questão dos fakes possivelmente financiados pelo Buriti, de que a senhora também foi vítima, como está o andamento da investigação?
Tenho acompanhado, porque eu oficiei ao Ministério Público. As redes sociais hoje são ilimitadas. Se eu fosse uma deputada de oposição no governo passado, em um outro governo, talvez eu estivesse liquidada. O que conseguiu me dar voz foi a internet, o Twitter, o Facebook. Quando o governo me perseguia com alguma acusação falsa eu conseguia provar aquilo porque eu não tinha controle da mídia, mas tinha os perfis. Usaram de tudo, eu fui muito ofendida. Eles pegaram textos falsos me chamando de chefe de quadrilha e postavam em links fora do País. A gente tentava tirar o link do ar, mas ele estava hospedado no Estados Unidos. Fico brincando que o Agnelo consegue inovar: criou uma quadrilha para falar mal das pessoas e conseguiu matar a voz aonde a gente tinha, na internet, mas que mesmo na internet ele não conseguiu. A técnica que eles usavam era muito errada, porque os fakes não tinha vida: “oi, bom dia, boa tarde”, isso não existia. Eles postavam as coisas positivas do Agnelo e quando alguém falava alguma coisa eles pegavam o saquinho de maldades, os dossiês. E só Eu tive coragem de representar. A Maninha foi vítima quando o PSOL se posicionou contra o Agnelo, cobrando uma postura do governador, o Rollemberg, o Joe Valle, Francischini. Quem foi vítima foram as pessoas que em algum momento se posicionaram contra o governador. Inclusive, um dia eu xinguei o ex-secretário de Publicidade (Abimael Nunes) de chefe de quadrilha e agora está confirmado que há uma quadrilha, para difamar as pessoas.
Como está o seu projeto para a próxima eleição?
Quero consolidar o meu mandato como deputada distrital. Não sei se Brasília vai reconhecer isso, só saberemos em 2014, mas eu trabalhei muito para tentar ajudar a população. Fui muito perseguida. Tenho que consolidar minha votação.
A senhora acha que os partidos de esquerda, o PSB, por exemplo, podem estar no palanque do Roriz, por exemplo?
Acho que tudo pode acontecer. Quem acreditava que o PMDB do Roriz poderia se coligar com o Agnelo? Ninguém acreditava e foi um projeto vencedor. Bem surreal, mas ganhou a eleição. Acho que tudo é possível na política. Se encontrarem nomes capazes de criar pontes, um ambiente eleitoral em 2014. Até porque, o que é direita e esquerda neste País e no DF?