Paulo Gusmão, Eduardo Brito e Millena Lopes
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Substituto de José Roberto Arruda (PR) na cabeça de chapa para concorrer ao Governo do Distrito Federal, Jofran Frejat (PR) ressalta sua experiência de deputado federal por cinco mandatos e secretário de Saúde por quatro vezes como diferencial na disputa pelo comando do Palácio do Buriti. Sabatinado por jornalistas e leitores do Jornal de Brasília, o médico cirurgião mostrou discurso afinado com o do ex-governador, que tem saído às ruas para fazer campanha ao lado dele. “Tenho impressão que herdarei grande parte dos votos dele”, aposta, em análise aos números da pesquisa Ibope que coloca Frejat empatado com o governador Agnelo Queiroz (PT), em segundo lugar, com 21% das intenções de voto, “em apenas três dias de campanha”. Mas o médico, de voz firme e discurso recheado de piada, diz que pretende vencer ainda em primeiro turno.
Para o senhor, qual a importância de participar desta sabatina?
É uma satisfação muito grande. Sou leitor assíduo do Jornal de Brasília. Acompanho o trabalho competente e sério que o jornal faz. E é um orgulho, para nós, de Brasília.
Como o senhor reagiu à pesquisa Ibope que o coloca com 21% das intenções de voto?
Já fui eleito deputado federal cinco vezes. Fui deputado constituinte e tenho uma densidade de eleitores grande, que conhecem meu trabalho como secretário de Saúde quatro vezes, deputado federal, ex-secretário-geral do Ministério da Previdência, ministro da Previdência. É uma longa história de prestação de serviços na área pública.
Os especialistas têm dito que há um processo de transferência de votos de Arruda para o senhor, que ainda está em curso. É possível prever um novo afluxo de votos para a sua candidatura?
Me apresentaram como candidato e eu comecei a fazer campanha tem três dias e já alcançamos um percentual bastante interessante. É difícil fazer essa avaliação. A população está buscando um candidato experiente, que tenha história. Essa experiência é um elemento fundamental. Acredito que grande parte dos eleitores do Arruda votará em mim, até porque ele está pedindo votos. E ele tem uma empatia muito grande com a população. Tenho impressão que herdarei grande parte desses votos.
Com o senhor na cabeça de chapa, o plano de governo muda?
Como era candidato a vice do Arruda, o plano de governo apresentado era assinado por ele e por mim. Participei ativamente da construção desse plano. E vai funcionar. Primeiro, que o Arruda foi um governador atuante e tem uma experiência grande. E eu também tenho experiência tanto na área de saúde quanto na área de educação e de segurança pública. Além de cirurgião, sou perito médico legista aposentado. Tenho experiência na área de segurança pública. O que me move é a vontade de recuperar Brasília da situação em que se encontra hoje.
Caso seja eleito, os casos de nepotismo voltarão ao DF?
O nepotismo hoje é proibido. Antigamente, não era. Quem me conhece sabe que eu não tenho nenhum interesse em colocar parentes no governo, até porque eu não tenho nenhum parente que esteja precisando de emprego.
O senhor já havia dito que tinha deixado a vida pública. O que fez com que voltasse a ser candidato?
Estou sendo convocado. Na verdade, já tinha dito que não disputaria mais. Mas me trouxeram uma série de proposições para tentarmos recuperar algumas áreas do DF, como a Faculdade de Medicina, que parou. A gente quer criar a Universidade do Distrito Federal. Outro aspecto que me preocupou muito foi que eu recebi uma pauta de reivindicações dos servidores da saúde pública e estava lá um pedido de plano de saúde. Nada contra a reivindicação, mas quando o servidor da saúde pública quer ser atendido na rede privada, algo está errado. Isso me fez perguntar: tenho direito de não ajudar? Com toda a experiência que tenho, com todos os hospitais e centros de saúde que construí, não tenho direito de dizer “não” para a população. Eu me senti convocado e estou enfrentando.
Quando o senhor foi presidente da Comissão de Seguridade Social da Câmara, colocou em votação o processo de descriminalização do aborto, que se arrastava havia algum tempo. O senhor é contra ou a favor do aborto?
Existe uma legislação definida. O que queriam era a descriminalização do aborto. Eu não sou favorável a isso. Eu sou favorável ao que existe na legislação: em caso de risco de vida para a mãe e estupro, eu acho que o aborto é recomendado. Ninguém tinha coragem de colocar isso na pauta e eu tive. E o projeto foi derrotado por 33 a zero.
Que participação Arruda terá no seu governo?
Ele já disse claramente que já está empregado: será o motorista da mulher dele (Flávia Arruda), nossa candidata a vice-governadora. Se ele sugerir alguma coisa, eu vou analisar, mas o governador serei eu. E quem me conhece sabe que eu não abro mão dos meus princípios, das minhas posições. Arruda me respeita, como eu o respeito. Ele sabe como é que eu ajo e ele me trata com muita cortesia, gentileza e respeito.
O senhor tem alguma proposta concreta para valorizar os professores da rede pública?
Temos muito respeito pelo professor e acho que o trabalho do professor tem sido negligenciado. Não se deu o cuidado e a preocupação com o seu trabalho. Sou da época em que o professor era a continuação da educação de casa e isso foi abandonado. É preciso dar condições de trabalho e salário. O professor precisa ser respeitado. Fui monitor de cirurgia e perceptor de médicos residentes. Sei da responsabilidade e o que se deve fazer.
Caso seja eleito, o senhor vai continuar com o projeto de financiamento de habitações ou vai entregar lotes às famílias?
O programa de habitação atual surgiu no governo Arruda, com o Jardins Mangueiral. É preciso que se estabeleçam os critérios, saber quem pode pagar e quem não pode. O programa de construção de moradias vai ter continuidade, mas vamos estabelecer os critérios.
Como o senhor pretende tratar o Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) e a Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos)?
Tem que ser reanalisado. Brasília é uma cidade que tem características especiais. E este PDOT, que é um plano de obras, nós temos que examinar. Não vou facilitar a vida de quem quer ganhar dinheiro construindo prédio, mas também não vou impedir que a população seja beneficiada. Vamos trabalhar para tirar o PDOT da Câmara Legislativa. É preciso que alguém tome uma posição de comando.
O senhor está preparado e motivado para uma fase de agressividade na campanha?
Já está acontecendo. Quinta-feira, estávamos na Rodoviária, quando surgiu um pessoal com bandeiras vermelhas, nos agredindo. Mas não respondemos a provocações, nossa discussão é no campo das ideias. Elogiamos o que está bom e criticamos o que está errado e nossa avaliação é de que podemos fazer melhor. Não é guerra. Queremos a melhor saída para Brasília. Se alguém está fazendo isso para defender seu empreguinho de livre provimento e usando a máquina pública para este tipo de coisa, não conte comigo, porque não deixo.
Criar a Universidade do Distrito Federal é uma das principais bandeiras do seu governo?
Isso é parte do que está no plano de governo apresentado, mas existem outras questões fundamentais, como a segurança pública. É preciso reestruturar as carreiras dos policiais civis e militares. Precisamos regularizar os condomínios, porque são 500 mil pessoas vivendo de forma irregular em regiões como Sol Nascente, Por do Sol, Porto Rico, que não têm esgoto, nem asfalto.
O senhor nomearia Arruda como seu secretário de Obras?
Não. Eu vou escolher aqueles que vão trabalhar comigo. Conheço o Arruda há 40 anos e sei que ele trabalha bem, mas ele mesmo não quer. Ele foi impedido de disputar a eleição e está incomodado com isso. Ele vai participar apenas da campanha. Eu me considero uma pessoa competente e preparada para administrar o Distrito Federal. Tenho amor pela cidade.
Como será sua relação com a Câmara Legislativa?
Uma relação de respeito. Se alguém imagina que, por ser deputado distrital ou federal, vai indicar alguém para ser preposto dele no governo, está enganado. Temos de ter relação cuidadosa, gentil, organizada e republicana.
O que vai fazer para resolver o problema das administrações regionais, onde a maioria dos servidores são comissionados?
Vou acabar com isso. É fácil. Vou fazer concurso. Quem quiser, passe e entre. Quando você começa a colocar política na administração, você destrói o serviço. É uma coisa que eu sempre lutei contra. Se você quer o emprego, faça um concurso público, conforme está na lei. Vamos escolher pelo mérito.
O que os servidores públicos do GDF podem esperar de um governo Frejat?
Primeiro, seriedade e correção. Segundo, vamos sentar e dialogar. Sou duro na decisão, mas sou muito bom de diálogo. É preciso ter uma planilha de custos. Pelo que dizem por aí, o GDF hoje está no limite prudencial de gastos. Com R$ 33 bilhões de orçamento, só aplicaram R$ 300 milhões em investimento. E o resto, para a manter a máquina.
A dívida do GDF com precatórios é de R$ 4,5 bilhões e passa para a Justiça 1,5% da receita para pagar. Assim, serão necessários 22 anos para liquidar a dívida. O senhor considera justo?
Não posso definir aqui se vai aumentar, mas, com o orçamento na mão, podemos avaliar o que pode ser feito, porque acho injusto que as pessoas tenham o direito e o GDF não pague o que deve.
É mais fácil enfrentar quem defende a continuidade ou quem se diz a novidade? O senhor tem preferência para segundo turno?
Não tenho preferência, porque acho que vou ganhar no primeiro turno. Eu decidi que vou disputar, vou ganhar a eleição e vou mostrar à população que sou capaz de governar seriamente a capital da República. O que eu estou trazendo é a minha experiência e o meu conhecimento, não estou inventando nada. A inexperiência na administração pública é uma situação extremamente incômoda, porque as pessoas vão ter que aprender primeiro, para depois começar a fazer.
O senhor pretende disputar a reeleição, se for eleito?
Não tenho intenção de disputar reeleição. Quero fazer um bom governo. Se, depois, o povo achar que a gente pode disputar outra eleição, vamos analisar com calma.
Arruda não fazia campanha para candidatos à Presidência da República. E o senhor?
A linha é a mesma. Não vou fazer campanha, mas o meu voto pessoal é para o Aécio Neves (PSDB).
O GDF deixa de arrecadar milhões de reais pelas deficiências dos postos fiscais. O que o senhor pretende fazer a esse respeito?
O DF não pode se dar ao luxo de receber só o dinheiro da União. Vamos encontrar um mecanismo de arrecadação que livre Brasília disso. Vamos estudar o melhor mecanismo para aumentar a arrecadação.
Caso o senhor assuma o GDF, qual será sua primeira medida?
No primeiro momento, vou acabar com a Agefis. Vamos redistribuir esse pessoal para as administrações regionais. Depois, vamos ao Pôr do Sol, Sol Nascente e Porto Rico, com as máquinas, para começar a asfaltar, resolver problema de esgoto, fornecimento de água e iluminação. E vamos resolver a questão dos militares, para que tenham um plano de carreira decente.
O senhor acha que esta eleição pode determinar o fim ou a continuidade do Rorizismo?
Vai ser muito difícil acabar com o reconhecimento do trabalho do Roriz. Seria uma ingratidão. Ele tem as filhas e neto, que devem dar continuidade a isso. Roriz, assim como Arruda, está me apoiando e eu fico muito honrado com isso. Não se trata de Arrudismo, Rorizismo, ou qualquer coisa nessa ordem. Está se discutindo a possibilidade de se fazer um grande governo. E quem sabe, depois, não vão incensar o Frejazismo.
Como o senhor pretende escolher os administradores regionais?
O ideal seria que fosse escolhido por eleição. Mas se o administrador escolhido for adversário político do governador e, como não tem receita, cria um problema para a cidade. Se o administrador fizer mal feito e o governador não tem autoridade para retirá-lo porque ele foi eleito, como se resolve isso? Eu acho que o caminho é escolher alguém da região, com a criação de um conselho com pessoas que tenham influência na comunidade.
Por que o senhor se submete a acertos com Roriz e Arruda?
Não tenho acerto com ninguém. Só em casa, com minha mulher.
O senhor pretende privatizar alguma empresa pública?
Nenhuma. A CEB está mal, quase quebrada. Vamos atrás de recursos, inclusive internacionais, para recuperá-la. E a Caesb também. O BRB precisa ser um banco de fomento ao desenvolvimento da cidade. Queremos também recuperar a Novacap, que prestou um grande serviço a Brasília.
Como o senhor vai tratar o problema dos usuários de crack e moradores de rua?
Essa questão inclui segurança pública e saúde. A pessoa que usa crack é um doente e não apenas um marginalizado. Temos que criar locais para internar essas pessoas. Com relação ao policiamento, vamos colocar a polícia para acompanhar. E aos bandidos, cadeia.
O senhor pretende reduzir o número de secretarias?
Nós temos 40 secretarias hoje. Isso inchou a máquina, aparelhou o DF. Vou analisar e vou reduzir.