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Política & Poder

Questionar eleições vira regra de direita a esquerda na América Latina

Derrotados insistem que houve irregularidades uma cartilha que foi usada por Jair Bolsonaro em 2022

Lindauro Gomes

21/07/2026 5h51

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Foto: Martin Bernetti/AFP

DANIELA ARCANJO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS)

Os dois países mais recentes a realizar eleições na América Latina estão mergulhados em imbróglios parecidos: candidatos alinhados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, saíram vitoriosos das urnas, enquanto os derrotados denunciam supostas irregularidades no processo eleitoral.

Foi assim no Peru, onde Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori (1990 – 2000), derrotou o candidato de esquerda Roberto Sánchez no início de junho, e na Colômbia, que elegeu o ultradireitista Abelardo de la Espriella em detrimento do apadrinhado do atual presidente, Gustavo Petro, Iván Cepeda.

Em ambos os casos, a vitória se deu por margens mínimas. Quase 50 mil votos separam Keiko e Sánchez, enquanto, na Colômbia, a diferença entre os dois candidatos foi a menor já registrada: 0,96%, ou pouco mais de 250 mil votos.

A diferença estreita aliada a outras questões, como uma certa desorganização institucional no Peru e a possível influência de Trump no pleito colombiano, levou os perdedores a questionar os resultados, o que pode provocar ainda mais instabilidade nos países já polarizados, segundo especialistas.

Observadores internacionais e locais coincidem em uma questão: não há registro de fraudes generalizadas nos pleitos de nenhuma das nações, apenas falhas pontuais que foram apontadas nos relatórios iniciais das organizações.

Em relação ao Peru, por exemplo, a missão da União Europeia afirmou que, apesar de problemas logísticos (no primeiro turno, alguns locais de votação nem sequer abriram devido ao atraso na entrega dos kits eleitorais), os observadores “avaliaram positivamente os processos de votação e apuração”.

Na Colômbia, a missão do bloco afirmou ter visto uma eleição “transparente e bem organizada, apoiada por sólidas instituições democráticas”, apesar do cenário polarizado.

Apesar disso, os derrotados insistem que houve irregularidades uma cartilha que foi usada por Jair Bolsonaro em 2022, quando o ex-presidente foi derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por 1,8 ponto percentual; e pelo próprio Trump, em 2020. Ambas as acusações motivaram manifestações que culminaram em ataques às instituições: a invasão do Capitólio nos EUA, em 2021, e os atos contra as sedes dos três Poderes em Brasília, em 2023.

No caso do Peru, um país no qual a tentativa de anular votos após as eleições virou uma prática comum nos últimos pleitos, a principal acusação de Sánchez diz respeito aos votos no exterior —justamente os decisivos para a vitória de Keiko.

Sua equipe, que chegou a falar em “vícios irreparáveis” e “fraude eleitoral”, questiona sobretudo o fato de que, no segundo turno, as atas eleitorais que vieram do exterior não foram digitalizadas antes de serem levadas ao Peru, como havia ocorrido no primeiro turno.

Em vez disso, elas foram transportadas sob custódia diplomática e policial e contabilizadas após chegarem ao país, algo que não contraria as regras eleitorais, segundo um comunicado do Ministério das Relações Exteriores.

“O que eu notei, principalmente no Peru, é que é um processo com muitas falhas”, afirmou Renato Ribeiro de Almeida, doutor em direito eleitoral pela USP que estava no país andino como observador internacional durante as eleições. “Eu tive contato com as autoridades eleitorais do Peru e me pareceu haver seriedade no processo. O problema é que não tem o nível de organização e institucionalidade que nós temos no Brasil.”

Na Colômbia, as acusações são diversas. Logo após a votação do primeiro turno, Petro e Cepeda falaram em irregularidades de centenas de milhares de votos depois que Espriella, contrariando todas as pesquisas de opinião, liderou a votação.

Após a derrota no segundo turno, Petro chegou a afirmar que o verdadeiro vencedor da eleição foi seu aliado, não Espriella. Já Cepeda concentra suas acusações no apoio dado por Trump ao opositor e afirma que recorrerá à desobediência civil para contestar o resultado.

O republicano declarou seu apoio “completo e total” a Espriella em sua rede, a Truth Social, após o primeiro turno.

“Até o momento, não vimos nenhuma pesquisa que consiga determinar como um país estrangeiro, o país mais poderoso do mundo, pode afetar um eleitorado que depende em grande parte dos EUA”, afirmou a socióloga Francesca Emanuele, do CEPR (Center for Economic and Policy Research), que esteve no Peru nas eleições.

A socióloga Francesca Emanuele, do CEPR (Center for Economic and Policy Research), que acompanhou as eleições no Peru, afirmou que, até o momento, pouco se fala da forma como Washington pode influenciar um eleitorado tão dependente dos EUA.

“É um padrão que vimos nas últimas eleições da América Latina por parte de Washington”, diz, citando também o pleito de Honduras em novembro de 2025. No país centro-americano, o conservador Nasry Asfura foi eleito após Trump ameaçar cortar ajuda financeira à nação.

Almeida diz que a onda de questionamentos o preocupa. “Isso gera uma dúvida na sociedade e no processo democrático em todas as Américas. Parece que virou uma regra —quem perde a eleição diz que foi roubada. Aconteceu nos EUA, no Brasil, e está acontecendo agora [na Colômbia e no Peru]. Não é uma particularidade da direita ou da esquerda.”

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