Menu
Política & Poder

Pré-campanhas de Lula e Flávio já geram quatro vezes mais ações no TSE em meio ao avanço da IA

Levantamento identificou 87 representações protocoladas no TSE entre janeiro e maio deste ano envolvendo presidenciáveis

Redação Jornal de Brasília

06/06/2026 7h29

Foto: Evaristo Sá/AFP

A disputa presidencial de 2026 começou mais cedo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Antes mesmo do início oficial da campanha, o embate entre os principais pré-candidatos, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), já se transformou em uma corrida aos tribunais, com um volume de ações quatro vezes maior do que o registrado no mesmo período da última eleição presidencial.

Levantamento do Estadão identificou 87 representações protocoladas no TSE entre janeiro e maio deste ano envolvendo os principais pré-candidatos e partidos da corrida presidencial. Em apenas cinco meses, o volume já equivale a quase um terço de todas as representações registradas ao longo de 2022, ano da última eleição presidencial. No mesmo período daquele ano, haviam sido protocoladas 19 representações. Em 2018, foram apenas 10.

Neste ano, PT e PL concentram mais da metade dos processos registrados no período, com 21 e 26 representações, respectivamente. Entre os temas mais frequentes presentes nas ações até agora estão propaganda antecipada, divulgação de informações falsas, impulsionamento de conteúdo nas redes sociais e, mais recentemente, o uso de inteligência artificial (IA).

Para especialistas, o avanço da IA e o potencial de disseminação de desinformação nas redes sociais criam as condições para que 2026 se torne a eleição mais judicializada dos últimos anos. De olho nesse cenário, as principais pré-campanhas já começaram a reforçar suas equipes jurídicas para enfrentar uma disputa que promete ser travada não apenas nas ruas e nas redes sociais, mas também nos tribunais.

Os primeiros sinais desse movimento já aparecem nos processos levados ao TSE. Em fevereiro, o PT protocolou duas ações questionando vídeos publicados pelo PL e por parlamentares da legenda, entre eles o senador Flávio Bolsonaro, que, segundo os advogados, utilizavam técnicas de deepfake, tecnologia capaz de simular voz e imagem para criar conteúdos falsos. Nos vídeos, Lula aparecia com uniforme de presidiário e era associado às fraudes no INSS.

Em outra frente, o PT, por meio da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV), acionou a Corte para pedir a retirada do ar dos perfis “Dona Maria” nas redes sociais. As contas utilizam uma personagem criada por IA que viralizou com vídeos críticos ao presidente. Na ação, a federação sustenta que a imagem realista da personagem pode ser confundida com uma pessoa real e integrar uma estratégia de manipulação de informações.

O PL, por sua vez, recorreu ao TSE para contestar um vídeo impulsionado pelo PT nas redes sociais. Segundo os advogados da legenda, o material utilizou inteligência artificial para associar Flávio Bolsonaro a supostos escândalos financeiros envolvendo o Banco Master, influenciando a disputa eleitoral antes do início oficial da campanha.

De olho no avanço da inteligência artificial, o TSE aprovou em março novas normas para a disputa. Entre as medidas está a proibição da divulgação de conteúdos eleitorais produzidos por IA nas 72 horas que antecedem e nas 24 horas posteriores a cada turno de votação. A Corte manteve a obrigação de identificar conteúdos sintéticos utilizados em propagandas eleitorais e a proibição de deepfakes. Apesar do endurecimento das regras, permanecem brechas, como a ausência de obrigações específicas para as empresas responsáveis pelos sistemas de inteligência artificial.

Para o advogado eleitoral Alberto Rollo, a tendência de crescimento dos conflitos eleitorais nos tribunais em 2026 decorre da combinação entre a popularização das ferramentas de IA, as dificuldades para identificar a origem de determinados conteúdos produzidos por essas tecnologias e as zonas cinzentas que separam liberdade de expressão, desinformação e ataques à honra de candidatos.

“Em 2026, a inteligência artificial deve se consolidar como o maior desafio para o TSE. Sem dúvida, será a eleição da IA. Ao contrário de 2024, as tecnologias agora estão mais acessíveis e mais fáceis de usar”, afirma.

O advogado eleitoral e pesquisador da PUC-SP Erick Beyruth vê um cenário semelhante. Para ele, a sofisticação das ferramentas digitais disponíveis tende a ampliar a quantidade de disputas levadas à Justiça Eleitoral. Recursos capazes de criar avatares, simular vozes e produzir conteúdos cada vez mais realistas aumentam o potencial de induzir eleitores ao erro e pressionam candidatos e partidos a recorrer ao TSE para pedir a remoção de materiais considerados irregulares. “Em 2026, esse conteúdo circula de uma forma muito mais sofisticada”, afirma.

O pesquisador também aponta a permanência da polarização política como um fator que impulsionador de novas representações.

Mas a inteligência artificial não é o único tema que já mobiliza os pré-candidatos na Justiça Eleitoral. A propaganda eleitoral antecipada também aparece entre os assuntos mais frequentes das ações protocoladas até aqui. Esse tipo de representação envolve conteúdos divulgados antes do início oficial da campanha que possam influenciar a disputa eleitoral, seja por meio da promoção indevida de candidaturas ou de ataques a adversários.

Um dos casos foi apresentado pelo partido Missão, do pré-candidato Renan Santos, e pelo Novo, legenda do governador Romeu Zema. As siglas tentaram barrar o desfile da Acadêmicos de Niterói, cujo enredo abordou a trajetória do presidente Lula. Na sequência, o PL também ingressou na ação alegando propaganda eleitoral antecipada e possíveis indícios de abuso de poder político e econômico.

Durante as eleições, representações sobre propaganda eleitoral costumam ser analisadas por juízes auxiliares designados pelo presidente do TSE. São eles que examinam pedidos urgentes, como remoção de conteúdo, direito de resposta e liminares, antes de submeter as decisões ao plenário da Corte.

Para 2026, o presidente do TSE, ministro Nunes Marques, designou o vice-presidente da Corte, André Mendonça, para atuar nessa função ao lado da ministra Estela Aranha. Tradicionalmente a análise dessas ações costuma ficar concentrada em ministros substitutos, especialmente os oriundos da advocacia.

A dinâmica começou a mudar nos últimos anos. Em 2022, por exemplo, Alexandre de Moraes também ampliou o grupo responsável pelos processos de propaganda eleitoral ao incluir a ministra Cármen Lúcia entre os julgadores.

Lula e Flávio reforçam times jurídicos de olho nas eleições

Com a expectativa de que as disputas judiciais tenham peso crescente na campanha, as pré-campanhas também começaram a reforçar suas estruturas jurídicas. Flávio Bolsonaro aposta em um grupo de advogados com trânsito nos tribunais superiores para conduzir sua estratégia eleitoral. Entre os nomes está Maria Claudia Bucchianeri, escolhida pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para uma vaga de ministra substituta do TSE em 2021. Ela permaneceu na Corte até 2023.

A aposta do grupo é que a nova composição responsável pelas ações de propaganda eleitoral adote uma postura menos intervencionista do que quando Moraes presidiu o TSE durante as eleições de 2022.

Nos bastidores, porém, há a avaliação de que parte das disputas eleitorais pode continuar chegando ao Supremo por outras frentes. Entre elas estão o inquérito em que Flávio é investigado por suposta prática de calúnia contra o presidente Lula e os pedidos apresentados por parlamentares para que o senador também seja incluído na investigação que apura a atuação de autoridades e agentes políticos brasileiros junto a autoridades americanas para defender sanções contra o Brasil.

Já a equipe jurídica de Lula ainda está em fase de definição. Um dos principais nomes cotados para integrar a coordenação da área é o do advogado Marco Aurélio de Carvalho, do grupo Prerrogativas. Segundo aliados, ele já foi convidado por Lula para participar da estrutura jurídica da pré-campanha, mas uma eventual entrada ainda depende de uma conversa com Edinho Silva, presidente do PT.

Interlocutores de Marco Aurélio afirmam que ele condiciona a participação à possibilidade de ter autonomia para montar a equipe e avalia que poderia contribuir mais diretamente para a articulação em São Paulo.

No entorno petista, há a percepção de que a estrutura jurídica da pré-campanha ainda não atingiu o mesmo grau de organização dos adversários. Aliados relatam que a equipe de Flávio Bolsonaro já se prepara para uma espécie de “guerra de guerrilha” jurídica, com monitoramento permanente das redes sociais e reação rápida a conteúdos considerados irregulares. O grupo também reconhece a força da equipe adversária, especialmente a atuação de Maria Claudia Bucchianeri, vista como um dos principais nomes do meio eleitoral.

Estadão Conteúdo

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado