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Parentes de vítimas da Covid cobram da CPI relatório firme e repudiam reação do governo Bolsonaro à crise

Os depoimentos foram carregados de dor, luto e repúdio às ações do governo Jair Bolsonaro na crise sanitária

Por FolhaPress 18/10/2021 4h54
Foto: Secretaria de Saúde

Mateus Vargas e Renato Machado
BRASÍLIA, DF

A CPI da Covid recebeu nesta segunda-feira (18) familiares de vítimas da pandemia. Os depoimentos foram carregados de dor, luto e repúdio às ações do governo Jair Bolsonaro na crise sanitária. Ainda reforçaram a pleito do grupo majoritário da comissão de que é preciso criar uma pensão para órfãos da pandemia.

Os convidados representaram diferentes regiões do Brasil, entre eles uma enfermeira que viveu “uma guerra” em Manaus, um pai que perdeu o filho e ouviu “e daí?” de bolsonaristas e uma filha que viu a mãe morrer recebendo tratamento com kit Covid na Prevent Senior. Falou ainda à comissão representante da ONG Rio da Paz.

Os parentes das vítimas cobraram um relatório firme da CPI, expondo falhas do governo na crise sanitária e se opondo a promoção de políticas que ferem a ciência, como a distribuição de medicamentos sem eficácia. A CPI também divulgou música de Ivan Lins feita em homenagem às vítimas da pandemia.

Um dos depoimentos mais dramáticos da sessão da CPI foi o do taxista Márcio Antonio do Nascimento Silva, pai de Hugo Dutra, vítima da Covid-19 aos 25 anos, em abril de 2020. Em junho do ano passado, Silva recolocou na areia da praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, cruzes brancas de protesto pelas mortes na pandemia, que haviam sido derrubadas em ato de vandalismo.

“Quando cheguei [à praia], tive ato de desespero. Perdi a razão, não aceitei aquilo. Era muita dor, muita tristeza. Falei para o cara: Meu filho morreu, você vai ficar gritando ‘e daí?”‘ Senadores fizeram falas emocionadas após a fala do taxista. Humberto Costa (PT-PE) pediu união do grupo majoritário da comissão para que o trabalho final da investigação não se perca em “fogueira de vaidades”.

“Os senadores que estão aqui, não têm o direito de por qualquer razão que seja deixar de dar ao Brasil uma resposta, clara, unificada”, disse Costa. Sem citar as divergências entre os senadores por pontos do relatório e pelo vazamento de trechos do texto, o relator Renan Calheiros (MDB-AL) disse que as falas foram impactantes e prometeu fazer um relatório que expresse o que houve no Brasil durante a pandemia.

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Renan citou ainda uma cobrança de Rosane Maria dos Santos Brandão, ex-mulher de João Alberto dos Santos Pedroso, que morreu em abril deste ano. “Não entrem para a história ombreando com os fascistas e com os canalhas, coloquem um ponto final nesse genocídio”, disse ela.

“Entreguem o relatório final fiel às barbaridades e atrocidades que vocês ouviram aqui. O desprezo pela ciência, a negligência e o descaso”, afirmou Rosane. “E nós queremos contar essa história, porque a gente não elabora o luto no silêncio do esquecimento, nós precisamos falar e nós precisamos ser escutados”, completou ela.

O taxista Silva também criticou ações do governo Bolsonaro na pandemia. Ele relatou que teve raiva e se sentiu mal após ouvir o presidente reagir com um “e daí” a questionamentos sobre a Covid. “Me gerou muita raiva, muito ódio. Aquilo me fez muito mal”, disse, além de criticar quem chama a CPI da Covid de “circo”.

“Eu daria a minha vida para meu filho ter a chance de ser vacinado. Não tinha vacina, não tinha máscara”, afirmou.
Silva disse que foi chamado de comunista e de petista ao recolocar as cruzes na areia, e que os agressores ficaram constrangidos quando souberam que ele havia perdido o filho. “Teve momento que achei que meu filho era o culpado, que era marginal porque morreu de Covid.”

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“Eu quero sair daqui para curtir meu luto, mas eu precisava desse desabafo. Quero que alguém me faça entender por que lutar contra máscara, que salva vidas? Por que lutar contra a vacina?”, disse ele, que elogiou os trabalhos da CPI. A estudante Giovanna Gomes da Silva, de 19 anos, relatou à CPI que perdeu pai e mãe na pandemia no intervalo de 14 dias, e assumiu a guarda da irmã de 11 anos.

Os pais dela chegaram a ficar internados ao mesmo tempo. Dois dias após a morte da mãe, o pai teve de voltar ao hospital, pelo agravamento de um câncer. ” Quando meus pais faleceram, a gente não perdeu só os pais, a gente perdeu uma vida, não é?”

Giovanna disse que sentiu impacto emocional e financeiro da perda dos pais. “A gente passou a não ter e também a não ter quem nos ajudasse com isso. A gente teve pessoas próximas, familiares e amigos da minha mãe, que, com o pouco que tinham, começaram a ajudar a gente.”

Já a enfermeira de Manaus Mayra Lima relatou uma dupla “guerra” para tratar os pacientes infectados pelo novo coronavírus, nos hospitais e dentro da sua casa. Trabalhando em uma maternidade, ela via pequenos bebês perderem suas mães. Mas ela vivia um drama dentro de casa, ao perder a irmã e se tornar responsáveis pelos sobrinhos, dois deles gêmeos de quatro meses de idade.

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“Foram feitos todos os tratamentos, toda a equipe médica fez o tratamento, e ela faleceu no dia 10 de fevereiro, às 12h50. Dois dias antes, os filhos dela, os gêmeos, fizeram quatro meses de idade. E ela faleceu, deixando os dois órfãos, assim como tantas outras crianças em Manaus ficaram órfãs, desamparadas”, afirmou.

“Só em Manaus nós temos mais de 80 órfãos da Covid; só da minha família, são quatro. Quatro crianças”, completou. Atuando na maternidade, ela relata que muitas vezes se expôs ao risco para atuar em favor dos pacientes, muitas vezes sem os recursos necessários, sem equipamentos de proteção.

“Quando eu me formei, há 15 anos, na Universidade Federal do Amazonas, eu tinha um grande sonho de ajudar as grandes calamidades, conhecer outros países que precisam de ajuda e talvez atender pacientes em situações de guerra”, disse.

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“Hoje eu falo que eu vivi uma guerra, porque atendi pacientes muitas vezes sem proteção nenhuma, assim como os meus colegas da maternidade.” Mayra relatou que a irmã foi infectada em janeiro e chegou à UTI. A família teve de se juntar e comprar oxigênio, pois não foram suficientes os insumos enviados pelo governo federal ou doados ao estado.

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“O que é que aconteceu? A minha irmã faleceu no dia 10 de fevereiro com 100% do pulmão comprometido. A minha irmã entrou no hospital saturando 95% em ar ambiente. Todos os dias, nós víamos dez pessoas morrerem na nossa frente, agonizando. Elas entravam e morriam por causa de várias situações. Eu não culpo os médicos, não culpo os meus colegas, porque eles não tinham com o que trabalhar.”

Katia Shirlene Castilho dos Santos perdeu o pai e a mãe para a Covid-19, em um intervalo pequeno de tempo. A primeira morte provocou um choque, pois a família vivia a esperança da vacinação de seu pai, que aconteceria uma semana após a data do óbito.

A sua mãe, por sua vez, tornou-se mais um dos casos denunciados no âmbito do caso Prevent Senior. Ela foi internada e recebeu tratamento com o chamado kit covid e com medicamentos para tratar câncer de próstata, mesmo sem autorização da família.

“Quando a gente vê um presidente da República imitando uma pessoa com falta de ar, isso, pra nós, é muito doloroso. Se ele tivesse ideia do mal que ele faz pra nação, além de todo o mal que ele já fez, ele não faria isso”, afirmou.

“Aproveito e faço um apelo. Se você ainda não tomou a vacina, tome a vacina, por favor, aproveite essa oportunidade. Meus pais não tiveram essa oportunidade e poderiam estar aqui conosco”. Nenhum integrante da tropa de choque governista compareceu à audiência. O senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) apenas divulgou um vídeo no qual afirma que os convidados foram escolhidos a dedo para atacar Jair Bolsonaro.








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