As eleições de 2026 acirraram a polarização vivida no Brasil nos últimos anos, cristalizada na disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) pelo Palácio do Planalto. Já as candidaturas estaduais apontaram para o fortalecimento de novas lideranças, sobretudo de direita e conservadoras, e dos desafios enfrentados pela esquerda.
Para mapear os principais recados nas urnas, o Estadão realizou a série de entrevistas “Os eleitos”, com os deputados e senadores mais votados, além dos governadores que venceram no 1º turno. Dos 16 políticos ouvidos até o momento, a maioria avalia que o resultado é fruto, justamente, da polarização.
“Entendo que o recado é de que o eleitor quer um político de posicionamento, seja de direita, seja de esquerda. Mas a eleição do PL, a eleição para a direita me parece que foi muito boa”, disse a deputada federal Julia Zanatta (PL-SC), que comemorou a reeleição como parlamentar mais votada em Santa Catarina com um chicote.
A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) concorda com a polarização e vê no projeto bolsonarista uma ameaça à democracia. Na avaliação dela, a esquerda ainda consegue resistir a esse cenário.
“O recado que vem das urnas é de uma polarização primeiro muito grande, mas também de um polo de resistência contra o avanço brutal da extrema direita no nosso País”, avalia.
A direita e a esquerda divergem sobre o impacto da crise do Supremo Tribunal Federal (STF) nas urnas, diante do escândalo do Banco Master, com ministros e políticos apontados como envolvidos. De um lado, aliados de Flávio veem que o Judiciário teve protagonismo como tema nas urnas, tanto com decisões da Corte quanto do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
“Nós mandamos um grande recado a esse desgoverno do Lula”, disse o deputado federal Filipe Barros (PL-PR), eleito senador. “Para além disso, é um recado também a alguns ministros do TSE e do Supremo Tribunal Federal, que, por sua vez, decidiram participar das eleições de forma indireta, através de decisões judiciais para favorecer A ou B. Ao decidirem participar das eleições, a população também deu um grande recado e derrotou essa participação desses ministros no processo eleitoral.”
O deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) foi além e colocou a conta do desempenho de Lula no primeiro turno, atrás de Flávio Bolsonaro, ao ministro do STF Alexandre de Moraes.
“Acho que o maior derrotado nesta eleição não foi nem o Lula; foi o Alexandre de Moraes, que levou Lula com ele para essa lama”, afirmou o senador eleito.
Ex-juiz da Operação Lava Jato, o senador Sergio Moro (PL) endossa o coro.
“O País tem que ser um governo de leis, e não um governo de homens, ainda que esses homens sejam ministros do Supremo Tribunal Federal”, diz o governador eleito do Paraná.
Do outro lado, alguns nomes de Lula avaliam que ainda é cedo para dizer se a crise do STF influenciou o eleitorado. “Acredito que não existe um peso significativo”, disse a estudante de Direito Ana Elisa (PT-MG), eleita deputada federal como a mulher mais votada no Estado.
“Na verdade, a crise do STF impactou por (causa de) quem domina as narrativas nas redes. Então, como quem domina a narrativa nas redes sociais é a extrema-direita, eles pautam o que eles quiserem”, completou Ana Elisa.
Nesse sentido, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) diz que a mobilização digital ajuda a formar opinião, inclusive, sobre a crise do STF, e propõe à esquerda angariar espaço nas redes sociais. A ideia é tentar colar o escândalo do Banco Master à família Bolsonaro.
“O segundo turno também está aí para que a gente tenha mais condições de que, se for para explorar esse caso, mostrar o envolvimento direto da família Bolsonaro. Existiria escândalo do Banco Master se o Bolsonaro não tivesse governado este País? Porque a fraude foi feita durante o governo dele”, declarou a parlamentar.
Já a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), tenta se isentar da polarização ao mesmo tempo que se esquiva de opinar sobre a crise do STF, sobre a qual disse não poder responder. Os motivos: “dificuldade de acompanhar” os fatos e de “entender verdadeiramente os contextos”.
Ao evitar se aliar a qualquer um dos lados, Lyra reflete o tom adotado na campanha e no primeiro mandato. “A gente precisa parar de olhar para aquilo que nos separa e trabalhar por aquilo que nos une”, disse.
A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT-MG), alçada ao Senado, busca conciliar um meio-termo. “O debate é muito contaminado pela polarização. Eu diria que a minha vitória representa um pouco da despolarização que eu tento construir.”
Parte dos entrevistados atribui o sucesso da direita nas urnas ao desejo de renovação sentido pela população e à guinada ao conservadorismo, além do cansaço com o governo Lula.
“A mensagem dessas urnas foi clara: o Brasil quer mudança”, assinalou o deputado federal cassado Deltan Dallagnol (Novo-PR), eleito senador.
“A população enxerga que o presidente Lula não significa mais o futuro, não é sinônimo mais de futuro”, disse o senador eleito Lahesio Bonfim (Novo-MA).
“O Brasil é conservador e, daqui para a frente, a força política principal do País é uma força política conservadora. O eleitor está insatisfeito com os abusos do Supremo Tribunal Federal e espera uma resposta em relação a isso”, completou o vereador de São Paulo Lucas Pavanato (PL), eleito para a Câmara dos Deputados.
Para o autor da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) contra a escala 6 x 1, Rick Azevedo (PSOL-RJ), a esquerda precisa admitir falhas e repensar estratégias para avançar no 2º turno.
“O recado geral, não só no Rio de Janeiro, mas, no Brasil, é que a gente do campo da esquerda necessita de autocrítica urgente”, analisa o deputado federal.
Estadão Conteúdo