Menu
Política & Poder

Novas caras na política: sem penas de prisão e com maconha liberada

Arquivo Geral

25/09/2014 7h30

Próximo à Rodoviária do Plano Piloto, em meio à multidão, um homem de estatura média e cabelos brancos surge com um megafone e uma placa no pescoço.  Nas suas mãos, panfletos de campanha. Logo, ele se apresenta. Seu nome é Gilson Euzébio da Silva, 55 anos, candidato a deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores, o PT. Caso seja eleito, afirma que vai lutar por profundas mudanças na Segurança Pública. Suas principais ideias incluem a substituição de penas de prisão por educação, a revisão do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a descriminalização das drogas. Por conta disso, inclusive, acredita ter sido alvo de preconceito da própria chapa. Na sua página pessoal do Facebook publicou texto intitulado “PT discrimina candidato que defende maconha”, no qual critica o atual sistema político brasileiro. “É indispensável não só a reforma eleitoral, mas construir um novo sistema político-eleitoral, justo e democrático. Um sistema que não tenha medo de pensar, que permita o surgimento de novas ideias”, afirma o candidato na denúncia.

O senhor diz no Facebook que não pôde gravar seu programa eleitoral. Por quê? O PT realmente não admitiu suas ideias? 

Eles não dizem nada. Eu tentei obter resposta oficial e não me deram resposta. A única coisa que me falaram, por telefone, foi que quem tinha que gravar, já gravou. Então, se eu não gravei, estou fora. Mandei por e-mail também um pedido de explicação, mas fiquei sem resposta. Acho que pode ser por causa da minha bandeira sobre segurança pública, além da descriminalização das drogas. Muita gente se interessa pela violência. Muita gente lucra em cima da morte de outros. 

Uma das suas propostas de atuação, então, é a favor da descriminalização das drogas. Quais drogas? O crack, por exemplo?

Não. Com o crack a gente tem que acabar. Falo principalmente da maconha. Liberar a maconha já é muita coisa. Mas, já vi estudos mostrando que, se não for liberada a cocaína, não termina a guerra contra o tráfico. Estamos em guerra contra o tráfico há anos e isso não resolveu nada. Tem gente morrendo. Não é aumentando a repressão que se resolve isso.

O senhor chega a falar em um tratado de paz com o tráfico nas suas propostas. Como seria isso?

Tem que discutir com a sociedade como seria feito isso. A gente tem que suspender os ataques da polícia, por exemplo. Isso já reduz a violência, porque diminui a guerra. Precisamos de uma solução, mas ainda não sabemos qual é. Primeiro libera as drogas, depois vê o que se faz. 

O senhor. também tem a proposta de acabar com o sistema opressor do Estado. Como? Por quê? 

Hoje, você tem a polícia muito mais contra o cidadão do que em apoio a ele. E o Estado tem que agir de outra forma. É a favor do cidadão, não contra. A polícia tem que agir contra o assaltante, contra ladrão. Hoje, tudo é crime, é cadeia.

Como pretende substituir penas de prisão por educação? Como funciona essa ideia?

Eu já visitei muito presídio, de maiores e menores de idade. Não adianta fazer aqueles depósitos de pessoas. São depósitos de pessoas cheios de ratos, um horror. É muito mais barato você pegar um menor desses, que ao completar 18 anos vai estar fora de qualquer maneira, e oferecer educação enquanto ele estiver no centro socioeducativo. Pode ser um curso técnico, para ele sair de lá formado. Com profissão definida, certamente não vai voltar pro crime. 

E o que se deveria revisar no ECA? Como?

O ECA funciona hoje contra o adolescente. Ele é superprotetor e a superproteção não leva a nada. Vi vários casos de adolescentes que, se fossem maiores, não estariam presos. Mas, como são menores, estão presos. É uma superproteção que acaba funcionando ao contrário. Por exemplo, falam em criar um modelo para as unidades socioeducativas. Isso é uma maluquice total, não existe. Se você for cumprir o que está lá, vai ter um local para esses menores muito melhor do que as escolas têm, com piscina, campo de futebol e etc. Já temos muitas escolas técnicas que funcionam hoje em regime de internato. Os estudantes vão pra lá e ficam de segunda até sábado. A gente pode aproveitar esse sistema para colocar esses adolescentes infratores. 

O senhor diz que trabalho e educação são fortes apelos para que os jovens sigam as regras da sociedade. O que significa?

Se o adolescente tiver perspectiva não vai para o crime. Eles vão para o crime porque não vêm saída. Se você der trabalho e educação garantida, ele não vai entrar no crime. Mas, enquanto você deixá-lo sem perspectiva de futuro, ele vai entrar no crime. É isso que quer dizer.  

O senhor é jornalista. Queria entender um pouco como chegou a se candidatar. A vontade surgiu quando? E como?

Há muito tempo venho estudando a violência. E eu queria fazer uma experiência acadêmica. Na universidade não tem espaço para pesquisas de campo. E eu queria tentar fazer uma pesquisa de uns cinco anos, por meio da legislatura, no Congresso. Colocar essas ideias lá. Fazer legislação. Todos os grandes estudiosos têm apontado que a prisão não adianta. É uma coisa fracassada e ninguém apontou outro caminho claro. Eu acho que a prisão só é necessária em casos extremos. 

Quais casos? 

Um cara que tem tendência a ser criminoso.  Que já matou um, dois. Não desse jeito, claro. Enfim, uma pessoa que já tem antecedentes. Precisa ter, mas não é essa coisa toda.

E pedofilia, por exemplo? 

Sim. Quando for sexo com criança. Hoje, eles colocam adolescentes como se fosse criança. Prendem um cara de 30 anos que namorava uma menina de 17. Aí não dá.

Quando se filiou ao PT?

Em 2009, mas sempre fui militante.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado