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Política & Poder

Nordeste vira desafio para Flávio Bolsonaro com palanques frágeis e aliados hesitantes

Redação Jornal de Brasília

29/06/2026 5h47

flávio bolsonaro

Foto: Vitor Souza / AFP

JOÃO PEDRO PITOMBO
SALVADOR, BA (FOLHAPRESS)

O senador Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta dificuldades para ampliar sua presença política no Nordeste, com postulantes aos governos indefinidos em quatro estados, palanques frágeis e aliados reticentes no apoio ostensivo à sua candidatura à Presidência da República.

A região é um reduto eleitoral do PT e foi determinante na vitória do presidente Lula em 2022. O petista garantiu no Nordeste uma frente de 12,6 milhões de votos na disputa com Jair Bolsonaro (PL) e trabalha para pelo menos repetir o feito.

Faltando menos de um mês para o início do prazo das convenções partidárias, o campo bolsonarista segue sem candidatos ao governo em quatro estados nordestinos: Pernambuco, Ceará, Maranhão e Alagoas.

No Ceará, as conversas para uma aliança com o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) seguem em banho-maria em meio a uma disputa interna no PL entre Flávio e Michelle Bolsonaro (PL), escancarada na última quarta-feira (24) em um vídeo publicado pela ex-primeira-dama.

O apoio do PL a Ciro é apontado como um dos motivos dos atritos entre Flávio e Michelle. No vídeo, ele relatou ter sido maltratada e humilhada pelo enteado ao telefone após um discurso, em novembro de 2025, no qual defendeu uma aliança com Eduardo Girão (Novo).

Flávio defende uma aliança pragmática com o tucano, mas Ciro tem sinalizado que não subirá no palanque do senador. “Eu sou do PSDB, como é que eu vou participar de um ato de campanha que não é o do meu partido?”, disse Ciro ao ser questionado pela imprensa sobre o assunto.

O cenário também segue nebuloso no Maranhão. O bolsonarista Lahesio Bonfim (Novo) desistiu de concorrer ao governo e negocia uma candidatura ao Senado na chapa do ex-prefeito de São Luís Eduardo Braide (PSD), que tem evitado atrelar sua campanha ao cenário nacional.

O PL local é comandado pelo deputado federal Josimar de Maranhãozinho, que nesta semana disse apoiar para o Senado dois aliados de Lula: o senador Weverton Rocha (PDT) e o ex-ministro André Fufuca (PP).

Em Pernambuco, o PL não tem candidato a governador em uma eleição que deve ser marcada pela polarização entre a governadora Raquel Lyra (PSD) e o ex-prefeito do Recife, João Campos (PSB) -ambos aliados de Lula.

Candidato do partido ao governo em 2022, Anderson Ferreira desistiu da disputa majoritária e vai concorrer a deputado federal. Outros nomes do partido também miram o legislativo.

Ferreira afirma que o PL deve ter um candidato ao governo ou ao Senado, e destaca a contribuição dos setores mais conservadores na vitória de Raquel Lyra em 2022 e de João Campos no Recife em 2020: “A direita em Pernambuco tem sido determinante nas eleições.”

Na vizinha Alagoas, o PL perdeu musculatura após a desfiliação do ex-prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, que migrou para o PSDB. Com uma relação próxima aos filhos de Bolsonaro, ele se mantém distante da disputa nacional e foca no embate com o ex-ministro Renan Filho (MDB).

O deputado federal Alfredo Gaspar (PL) ensaia uma dobradinha ao Senado ao lado do ex-presidente da Câmara, Arthur Lira (PP). A chapa não tem candidato a governador.

A legenda também sofreu baixas em Sergipe. O ex-prefeito de Itabaiana, Valmir de Francisquinho, principal nome da oposição ao governador Fábio Mitidieri (PSD), trocou o PL pelo Republicanos após perder o controle do partido.

Isolado, o PL lançou a candidatura do vice-prefeito de Aracaju, Ricardo Marques, que não terá o apoio da prefeita Emília Corrêa, que também migrou para o Republicanos.

A expectativa é de uma candidatura pouco competitiva também no Piauí, onde o PL lançou a candidatura do jornalista Toni Rodrigues. Os principais partidos de oposição ao governador Rafael Fonteles (PT) estarão com Joel Rodrigues (PP), que não cravou apoio a Flávio Bolsonaro.

Na Bahia, o PL selou uma aliança com ACM Neto (União Brasil) na disputa contra o governador Jerônimo Rodrigues (PT). O ex-prefeito de Salvador adotou uma estratégia de distanciamento em relação à disputa nacional e sinalizou apoio ao nome de Ronaldo Caiado (PSD), de quem é amigo.

No início de junho, Flávio participou da Bahia Farm Show, feira agrícola em Luís Eduardo Magalhães, oeste do estado. ACM Neto, contudo, visitou a cidade apenas dois dias depois, e não cruzou com o aliado.

O ex-prefeito de Salvador tem sido pressionado por bolsonaristas a subir no palanque de Flávio, mas aliados veem riscos nesse movimento, que pode afastar eleitores lulistas insatisfeitos com o governador Jerônimo Rodrigues.

Os dois palanques mais estruturados de Flávio na região estão na Paraíba e Rio Grande do Norte, estados onde o PL ganhou musculatura com novos quadros oriundos de partidos do centrão.

Efraim Filho trocou o União Brasil pelo PL para concorrer ao governo da Paraíba. Desde então, tem feito uma campanha casada com Flávio Bolsonaro, que é esperado para um ato político no início de julho em Campina Grande, segunda maior cidade do estado.

No Rio Grande do Norte, o PL concorre ao governo com Álvaro Dias, ex-prefeito de Natal que deixou o Republicanos em março. Ele entra na disputa como principal nome da direita em um estado governado há oito anos pela governadora Fátima Bezerra (PT).

Na avaliação do cientista político Elton Gomes, professor da Universidade Federal do Piauí, as dificuldades enfrentadas por Flávio Bolsonaro no Nordeste não decorrem apenas da força eleitoral do PT, mas também do pragmatismo das lideranças regionais.

“Para o interior e para as estruturas partidárias estaduais, o que manda é o pragmatismo muito específico, muito fisiológico do chamado Centrão”, afirma. Segundo ele, parte dos políticos da região preferem manter boas relações com o governo federal e evitar associações que possam gerar custos eleitorais.

O pesquisador ressalta que o Nordeste não deve ser tratado como um bloco homogêneo e diz que a região vive uma “geografia política de dupla velocidade”, marcada pela coexistência de um lulismo ainda forte no interior e por um crescimento do bolsonarismo em áreas urbanas, impulsionado por temas como segurança pública, liberdade econômica e pautas conservadoras.

“O PT ainda é hegemônico no Nordeste, mas o teto do bolsonarismo subiu.”

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