A gestão petista nunca mais foi a mesma depois que perdeu o seu operador político mais eficiente. E não se trata aqui de julgamento moral, mas de constatação histórica. Com José Dirceu no comando da articulação, o governo não apenas dialogava com o Congresso, mas dominava as ações pela plena compreensão de sua lógica.
Dirceu operava pela via do poder real, não no discurso idealizado. Sabia que maioria parlamentar não se constrói com bravata de plenário, mas com leitura refinada de cenário, antecipação de movimentos e, sobretudo, unidade estratégica. Era o tipo de articulador que evitava erros primários, como ocorreu na rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal. Mas isso não é coisa recente.
O episódio da eleição de Eduardo Cunha à presidência da Câmara, inclusive, é a prova mais didática do dano de uma ausência que resultou em derrotas como essa com Messias. A vitória de Cunha não foi apenas uma derrota. Foi uma aula pública de desorganização. Enquanto o campo progressista se fragmentava em três candidaturas, Cunha avançava vencendo com 267 votos, depois da construção de uma maioria sólida, erguida com ampla liberdade.
Esse tipo de erro, sob a lógica de Dirceu, simplesmente não aconteceria. Porque Dirceu entendia que eleição não é espaço para afirmação ideológica interna. Quem viu ele trabalhar, sabe que eleição pra ele é campo de guerra política. E guerra se vence com concentração de forças, não com dispersão.
A partir dali, o que se viu foi uma sucessão de decisões marcadas por aquilo que se pode chamar de “teimosia petista”. Aliás, uma insistência que repete estratégias que ignoram a correlação real de forças. Um comportamento que mistura convicção ideológica com uma certa incapacidade de operar o pragmatismo necessário.
Sem Dirceu, o PT perdeu mais do que um articulador. Perdeu um método. Perdeu a capacidade de transformar divergência interna em unidade tática. E, principalmente, perdeu a noção de que o poder institucional exige, antes de tudo, coordenação.
O resultado está aí: dificuldades recorrentes no Congresso, derrotas evitáveis e uma articulação política que, muitas vezes, parece atuar no improviso.
Não é por acaso o triste destino do governo de Dilma Rousseff.
Todo mundo sabia que Eduardo Cunha articulava sua candidatura com base sólida, neutralizando dissidências com argumentos irrecusáveis. Todo mundo sabia do seu fôlego privilegiado, que operava voto a voto. Mas no campo oposto, ninguém sabia pensar estratégias de antecipação ou a fragmentação das forças adversárias.
Quando alguns poucos discípulos de José Dirceu apresentaram caminhos sólidos para evitar uma derrocada, a média que mimetizava a chefa apostou no confronto pelo confronto.
Com Eduardo Cunha na presidência, o Executivo perdeu o controle da agenda. A lógica das pautas bombas passou a protagonizar o processo. Dilma caiu sem indícios de corrupção. Sem coordenação tática para uma resistência , a tese das “pedaladas fiscais” funcionou como pretexto viável.
Sem perceber que o chão se abria abaixo dos seus pés, o Executivo brasileiro acabou se descobrindo enfraquecido no planalto central, sob a tutela das chamadas “emendas Pix”, que ampliaram ainda mais a autonomia dos parlamentares sobre recursos públicos, com menor mediação do Executivo.
Tudo isso na conta da falta de método. Na falta da velha capacidade de transformar maioria potencial em maioria real. Algo que José Dirceu dominava, até porque, no vocabulário de Dirceu, o verbo propor vem depois do verbo viabilizar.
A rejeição de Jorge Messias, não é um ponto fora da curva. É a curva inteira. Até porque cresce no Senado a tese do confronto, contemplada pela promessa de um despacho de gaveta do presidente Alcolumbre para o próximo nome a ser indicado por Lula para o STF. Uma oportunidade de ouro nas mãos de um articulador como José Dirceu, sobretudo se os senadores caírem na cilada de evitar o exame do nome de uma mulher preta, com a cara do povo brasileiro, para o STF.